Essa é uma seção que eu criei no site em homenagem a meu pai, Elmo Souza Dutra da Silveira. Ele era advogado e morreu aos 64 anos em 1994, vítima de complicações resultantes de hipertensão e diabetes. Em vida, ele adorava as plantas e os animais, e por isso esse tema é recorrente no trabalho dele. Outra de suas paixões eram os livros, paixão essa que acabou legando aos filhos. Dos quatro que teve, todos têm formação superior, sendo três com mestrado. Abaixo, uma foto dele e alguns dos poemas que ele nos deixou:

 

Desilusão

O menino plantou um ovo

mas o ovo não nasceu:

menino tentou de novo

-será que Deus esqueceu?

 

Testamento

Quando eu morrer, não deixarei herança

em ouro, prata, ou fina pedraria

O meu herdeiro herdará a lembrança

de um sonho vão numa existência fria.

 

Eu nada fiz, só admirei, em vida,

da madrugada ao pôr-do-sol sangrento;

Amei, também, e na ilusão querida

Achei consolo para o meu tormento.

 

Se alguém chorar quando eu houver partido

testemunhando afeto verdadeiro,

Deixo-lhes versos sem fazer sentido;

 

São meus amigos de ilusão perdida:

quando chegar o momento derradeiro,

guardai meus versos quem me amou em vida.

 

 

Poeminha

O meu poema

será sussurrado

Terá laivos de murmúrio

e milênios de silêncio.

 

Em meu poema

haverá vôo de pássaro

farfalhar de aragens

e deslizar de regatos.

 

É meu poema

silente canção de roda

com ritmo dolente

de uma canção de ninar.

 

Do meu poema

ficará só a lembrança.

Lembrança de nuvenzinha

que um dia se esfumaçou.

Sobre um tema de Vinícius

Quando eu morrer, o verdadeiro amigo

terá vontade de morrer comigo?

E soluçante, lívida, desvairada,

irá chorar a primeira namorada?

E recolherá, aqui e ali disperso,

o meu preimeiro ou derradeiro verso?

Dirá alguém, em alto e bom som,

que acabou de morrer um bom?

Poderá alguém afirmar, se susto,

que acabou de morrer um justo?

E minhas flores, senhor, minhas flores

encontrarão quem lhes dedique amores?

Ou irá alguém, soltando vivas,

libertar enfim minhas aves cativas?

Saindo assim, silencioso e sem alarde,

haverá quem julgue que fui tarde?

Com vida pouca e tão pouca história

estarei querendo demasiada glória?

Com verso pouco e tão pouco canto

estarei leiteando demasiado pranto?

..............

Mas diz, Senhor: -O verdadeiro amigo

terá vontade de morrer comigo?