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Eles e elas escrevem de forma diferente? Por Lígia Mothes* A categoria gênero/sexo é alvo de grande discussão teórica e vem sendo reconhecida como uma das mais complexas dentre outras categorias sociais. Em linhas gerais, sexo refere-se a diferenças fisiológicas entre homens e mulheres, ao passo que gênero inclui aspectos sociais e diferenças psicológicas no que concerne a papéis sociais, oportunidades e expectativas. Ser masculino e feminino é o resultado da combinação de diferenças biológicas entre homens e mulheres e do tratamento diferenciado que recebem desde pequenos, já que meninos e meninas são tratados de maneira diferente. Isso tudo resulta em comportamentos que os diferenciam. "Mulheres não nascem sendo mulheres: elas são feitas mulheres.". Essa frase famosa de Simone de Beauvoir, que também é verdadeira em relação aos homens, traduz uma interminável tarefa de construir-se homem e mulher em nossa sociedade. Essa construção inicia-se antes do nascimento, já no momento em que a futura mamãe fica imaginando se o bebê que traz no ventre será do sexo masculino ou feminino. Logo após o resultado das primeiras ecografias, os pais, sabedores do sexo do bebê, iniciam o processo linguístico do atributo masculino/feminino na escolha do nome, na decoração do quarto, na escolha das roupas, dos brinquedos e, ainda, em algumas sociedades orientais, na escolha do futuro cônjuge. Também o modo de falar com crianças varia conforme o sexo: com as meninas há, no vocabulário dos adultos, um uso exagerado de diminutivos, de adjetivos e de palavras que expressam sentimentos; com os meninos abundam as proibições, e a carga semântica das palavras é mais enfática. Com tratamentos diferentes dispensados a meninos e meninas, as crianças aprendem a ser diferentes também. Desde que nascemos, portanto, vivemos cercados pela noção de gênero/sexo: nas conversas, nos conflitos, nas brincadeiras, no humor, nos esportes, no lazer. A diferença entre o masculino e o feminino é lembrada para explicar quase tudo, desde o estilo de dirigir até o gosto pela comida. Isso nos parece natural e é aceito sem questionamentos. No entanto, seria possível observar diferenças também na forma de escrever? Minha curiosidade por essa questão me levou a investigar, em minha dissertação de mestrado, a existência de marcas linguísticas e argumentativas próprias de cada gênero/sexo em textos de alunos do Ensino Médio da Escola. Nessa pesquisa, realizada com adolescentes entre 15 e 17 anos, os alunos foram orientados a dissertar sobre o tema "O que é ser feliz?". Esse tema foi escolhido por não se caracterizar como circunscrito a um único grupo, assim, ambos os gêneros/sexos poderiam se sentir confortáveis para dissertar, pois ser feliz é uma das principais metas a serem perseguidas por todo ser humano. A análise dos textos revelou algo interessante: os meninos parecem usar mais advérbios de negação na função descritiva. Segundo David Barash (2007), os homens são mais diretivos, pois focalizam a atenção em uma única questão e empenham-se em resolvê-la, lembrando que, em tempos remotos, era imprescindível ter uma boa pontaria para abater a caça. Trazendo-se esse comportamento para o campo da linguagem, pode-se dizer que, ao contrário das mulheres, os homens têm mais dificuldade para incluir a voz do outro em seu discurso, por isso a preferência por esses advérbios de negação. Essa também seria a razão de eles também usarem a conjunção mas muito mais na função de oposição e, ainda, os adjetivos, em sua maioria, pospostos ao substantivo, o que confere um caráter objetivo ao texto. Por outro lado, para Barash, as mulheres, por serem mais sensíveis e emotivas, socializam com mais facilidade. Esse fator se reflete em seu discurso, pois elas conseguem, de certa maneira, identificar-se com as emoções alheias, o que muito auxilia nas relações interpessoais. Isso é claramente observado em três aspectos de seus textos escritos: o uso do advérbio de negação com função metalingüística; a conjunção mas usada como operador interrogativo interativo; e o uso de adjetivos antepostos ao substantivo, o que vem a atribuir um caráter subjetivo ao texto, pois estabelecem um juízo de valor. Essas são algumas das diferenças estruturais e funcionais que refletem os comportamentos distintos desses dois sexos. Entretanto, não foram encontradas apenas diferenças, mas também alguns pontos em comum, principalmente com relação à argumentação. O argumento mais utilizado tanto por eles quanto por elas para justificar a presença da felicidade foi a importância da amizade. Essa proposição é reiteradamente apontada como um fator que muito contribui para a felicidade do indivíduo. A família foi o segundo argumento mais utilizado pelos sujeitos da pesquisa para justificar o que lhes traz felicidade. Contudo, em termos qualitativos, meninos e meninas falam da família de forma diferente: eles, em sua maioria, argumentaram que a criação de uma família num futuro próximo lhes faria felizes; elas usaram o argumento no sentido de estarem bem com suas famílias no presente, ou seja, agrada-lhes a companhia de seus pais, avós e irmãos, mostrando-se fortemente vinculadas ao seu núcleo familiar atual. Já em termos quantitativos, os meninos referiram o tema mais vezes que as meninas, o que poderia ser indicativo de que as questões relacionadas a essa instituição estão mais presentes em seu ideário. As diferenças entre os gêneros/sexos também são evidentes na construção da argumentação. Para eles, por exemplo, adquirir bens materiais seria uma das formas de ser feliz. Para elas, obter afeto parece ser mais importante. Tradicionalmente, os homens costumam assumir-se como provedores materiais e guardiões da família, de acordo com os referenciais de gênero apreendidos ao longo da vida. Estes estão vinculados à imagem atávica do homem como aquele que é forte, capaz e provedor, contrapondo-se às responsabilidades femininas de educar os filhos, manter a harmonia no lar, permeadas de proximidade física e de afeto. Outro argumento que apareceu apenas nos textos dos meninos foi praticar esportes. A justificativa disso pode estar na biologia: sabe-se que, por conta da testosterona, hormônio masculino, os meninos são mais agressivos e competitivos que as meninas. Nos textos delas, dois tópicos aparecem com frequência, conseguir boas notas e obter um bom emprego. Essa preocupação do sexo feminino em atingir metas profissionais é bastante recente na história da humanidade. Até meados do século passado, mulheres não estavam inseridas no mercado de trabalho como hoje, muito menos preocupadas com sua independência econômica. De modo geral, o que se pôde observar é que há, sim, diferenças na forma como eles e elas escrevem, seja na escolha das palavras, na construção das frases, ou na seleção de argumentos. São diferenças muitas vezes sutis que somente uma análise quantitativa de dados pode revelar. Os resultados de minha pesquisa mostraram algumas, porém muitas outras ainda podem ser analisadas, talvez em outros tipos de textos que não o dissertativo. Por ora, fica sinalizada a possibilidade de se verificar a existência de marcas textuais próprias de cada gênero/sexo, resultantes de fatores sociais e também biológicos. * Mestre em Letras |