5. REFLEXÕES FINAIS - Íntegra do texto

Em julho de 2000, durante uma convenção nacional de professores de inglês em São Paulo, tive o prazer de conhecer a professora goiana Mariza Riva de Almeida. Ela ficou encantada em saber que era eu quem estava por trás do site Língua Estrangeira, o qual ela já havia visitado algumas vezes. Durante uma das oficinas do evento, Mariza, que estava sentada à minha frente, furtivamente se virou e me perguntou baixinho: "Vivian, como é que se ganha dinheiro com um site?" Eu ri e respondi, podendo ver o desapontamento dela: "Como os outros ganham, e se ganham, eu não sei; só sei que eu só gasto."

Nunca mais vi Mariza. Da última vez que tive notícias dela, em abril de 2001, ela estava de mudança para os Estados Unidos. Mas essa dissertação é, de certa forma, uma resposta longa e detalhada à pergunta que Mariza me fez e que voltou a me ser feita inúmeras outras vezes, por outros professores e em outras ocasiões: o que é, afinal, que um professor ganha para manter um site voltado ao público docente?

Entrevistas com webmasters de outros sites apontaram razões múltiplas: a possibilidade de organizar o próprio material, uma certa vaidade em serem vistos como "celebridades", o reconhecimento dos usuários, a familiaridade com ferramentas tecnológicas que são valorizadas no mercado de trabalho, a possibilidade de autoformarem-se continuamente e, principalmente, a oportunidade de interagir com pessoas de praticamente todos os cantos do mundo, contribuindo também para a formação de seus pares.

Não que o desejo de ganhar dinheiro com os sites - ou essa possibilidade - esteja ausente. Para alguns webmasters ouvidos nessa pesquisa, como Dave Sperling, o site é uma importante fonte de renda, tanto direta como indireta. Além dos recursos provenientes de publicidade, Dave ainda é pago para dar palestras para professores em diferentes países. Mas todos os entrevistados têm consciência das dificuldades em tornar um site rentável. Quanto maior o site, maiores os gastos para mantê-lo, maior a necessidade de tempo para gerenciá-lo, e portanto mais difícil de obter lucro. Já é uma vitória quando um site paga por si mesmo, ou seja, quando a receita cobre as despesas.

Ainda que a compensação financeira não esteja presente, os webmasters têm consciência de que a interlocução com professores de diferentes regiões geográficas, realidades de ensino, vivências em educação e estágios de desenvolvimento profissional é enriquecedora para ambas as partes. Vivenciam na prática o neotribalismo preconizado por Maffesoli (1998-a), que se traduz numa simbiose produtiva mediada pela tecnologia, a qual não é mais sinônimo de desencanto, mas de um reencantamento das relações humanas através de um estar-junto, de um sentimento de proximidade e de solidariedade com o grupo profissional do qual essas pessoas fazem parte. Não raro, como aconteceu inclusive comigo no site Língua Estrangeira, o que se inicia como um contato profissional através do site - o atendimento a uma solicitação, a resposta a uma pergunta, a indicação de um livro - muitas vezes evolui para uma amizade profícua e significativa.

A interatividade é uma das características do meio virtual que favorecem essas trocas, e que permite aos usuários de sites - no caso desta pesquisa, professores de inglês - se verem não apenas como receptores das informações disponibilizadas na rede, mas também como potenciais emissores. Cada vez mais, esses professores vão descobrindo na Internet a possibilidade de compartilharem conhecimento e experiências através dos portais voltados à educação , ainda que optem por não criarem os seus próprios sites.

Embora eu não tenha listado, entre os meus objetivos de pesquisa, estimular a criação de sites por um número mais expressivo de professores, este é um desejo que perpassa cada uma das páginas desse relatório. Apesar das ferramentas de web design estarem cada vez mais parecidas com um simples editor de texto, infelizmente são inúmeras as pessoas que não se julgam capazes de aprender a lidar com o hipertexto, com a linguagem html e com a hospedagem de páginas. Numa reação bastante típica para uma geração que ainda não se acostumou ao rápido desenvolvimento da tecnologia, alegam falta de tempo, de talento, ou ainda de alguma coisa relevante para compartilhar através de um site.

De fato, como bem expressou uma das entrevistadas nessa pesquisa, "conteúdo é rei." Principalmente quando esse conteúdo se contrapõe a uma verdadeira avalanche de lixo - informações falsas ou pseudo-científicas, propaganda, correntes, pornografia e promessas de dinheiro fácil, entre outras pragas da rede - e se revela particularmente relevante para o seu público.

O que precisamos não é uma maior quantidade de sites, mas sim de um maior número de sites de qualidade, que respeitem critérios básicos de organização, acessibilidade, usabilidade, originalidade, atualidade e, principalmente, relevância de conteúdo, conforme descritos no capítulo sobre critérios de qualidade para sites docentes.

De acordo com os depoimentos, muitas das características desejáveis nos sites são aprendidas na prática, ou seja, são implementadas gradualmente, a partir da crescente familiaridade do webmaster com o meio virtual. Um aspecto importante explicitado ao longo do estudo é que os "professores pontocom" são especialistas em educação, e não em informática. Não pode se esperar deles, portanto - e nem eles devem esperar de si mesmos - o perfeito domínio das regras de ergonomia, layout, ou gerenciamento de cores. Mas pode se exigir que eles valorizem o espaço virtual, povoando-o com informações realmente relevantes e interessantes ao público a que se dirigem. Bons sites são sempre bem-vindos, especialmente na área de educação, pois ao complementar, questionar - e, no caso de professores de inglês, até substituir - o conhecimento possibilitado nas universidades, os sites docentes estão se tornando uma ferramenta cada vez mais valiosa na instrumentalização da formação continuada dos educadores.

Como os conhecimentos necessários a qualquer atividade profissional - com destaque para a educação - são evolutivos e progressivos, é mandatório que os professores sempre busquem autoformar-se e atualizar-se continuamente através de diferentes meios, entre eles o meio virtual. Particularmente para os professores em início de carreira, os quais sentem a necessidade de recorrer a redes informais de apoio, o acesso aos sites docentes pode representar o amparo de colegas mais experientes com quem podem compartilhar problemas, preocupações, dúvidas, fracassos e êxitos. Obviamente que, para que o mimetismo com esses colegas não signifique a infantilização e dependência do professor, é preciso que ele busque, através da reflexão sobre a prática, a construção paulatina da sua autonomia profissional.

Manter um site docente não significa, entretanto, o pré-estabelecimento de papéis entre um webmaster que ensina e um usuário que aprende. Via de regra, as trocas beneficiam ambas as partes, à medida que o webmaster é impelido a refletir sobre as informações que disponibiliza no site, além de aprender a partir da interação com o usuário, o qual também carrega uma bagagem rica em conhecimentos, experiências e opiniões.

A formação continuada através dos sites docentes não deixa de esbarrar, entretanto, em alguns empecilhos. Um deles é a falta de senso crítico por parte de alguns usuários, que tendem não apenas a usar o que é oferecido na rede sem a devida reflexão sobre a prática, mas também a tomar como correto ou como verdadeiro tudo o que lêem na Internet. O dano causado por essa falta de criticidade é potencializado na Internet pela enorme quantidade de informações falsas, distorcidas, ou excessivamente simplistas. O importante é que a tomada de consciência sobre as limitações da Internet e dos sites educativos se dê sem que se desqualifique o potencial da rede, na qual abundam, também, as informações fidedignas.

Um outro aspecto que poderia ser considerado como uma desvantagem dos sites docentes na formação continuada dos professores, e não apenas os de inglês, é o fato de essa formação autogerenciada não proporcionar titulação ou certificação formal, o que geralmente é uma exigência nas instituições. Assim, o tempo e esforço consagrados para o desenvolvimento individual raramente é recompensado com promoções, reconhecimento ou aumento de salário. Entretanto, para a maioria de usuários e webmasters que têm acesso a esse canal de informação, o prazer da descoberta, das trocas e da reflexão sobre a prática, além do sentimento de estar evoluindo cultural e profissionalmente, são recompensas suficientemente generosas. Por isso, não apenas o número de sites, mas principalmente o de usuários da Internet, não pára de crescer.

Além do crescimento profissional, cultural e pessoal proporcionado pelas trocas com os usuários, os webmasters entrevistados disseram sentir-se recompensados, adicionalmente, em saber que o seu trabalho agrada e está sendo útil a centenas de professores, não raro espalhados pelo mundo. A rede de solidariedade entre professores que, ao formarem, se formam, torna-se a base de uma caminhada em direção a uma prática mais reflexiva para ambas as partes. Naturalmente, essa reflexão vai se dar a partir das diferentes maneiras de conceber a prática educativa, as quais se traduzem não só nas diferentes estratégias que os professores utilizam para fazer frente às exigências de sua prática, como também num alinhamento mais (ou menos) próximo com uma das diferentes perspectivas de formação e função docente.

A familiaridade com a tecnologia digital, por si só, não garante o crescimento profissional. Assim, mesmo entre professores que usam a tecnologia como instrumento de formação continuada ou no seu cotidiano pedagógico, nem sempre são observadas mudanças substanciais no papel que desempenham junto aos alunos. A caminhada em direção a uma prática reflexiva exige que aprendamos a procurar e a encontrar não apenas na tecnologia, mas dentro de nós mesmos, a solução para os problemas que o cotidiano do ensino nos impõe. Por isso, a experiência tem um destaque significativo entre os vários caminhos que levam ao crescimento profissional.

Entre as experiências possíveis no âmbito pedagógico, essa pesquisa demonstrou que a experiência de construir e manter um site docente desempenha um papel acelerador no crescimento profissional dos webmasters entrevistados, ao permitir que, através da rotina de gerenciamento dos sites, mantenham um contato ampliado com colegas de todo o mundo, pesquisem, compartilhem materiais e informações, criem conhecimento, atualizem-se constantemente e desenvolvam uma postura mais crítica e reflexiva em relação à própria prática.

Entretanto, ao optar por trilhar esse caminho, o aspirante a webmaster deve conhecer, também, as desvantagens e as demandas desse tipo de projeto. Além da grande quantidade de tempo necessário à criação e à manutenção do site, é preciso investir em infra-estrutura material e tecnológica que compreende um (bom) computador com modem, taxas de hospedagem, gastos com software e, dependendo do tipo de equipamento, também despesas com linha e conta telefônica. Isso sem falar na necessidade de proteção constante contra vírus que freqüentemente vêm junto com e-mails de usuários, e da imensa quantidade de spam resultante da exposição do endereço eletrônico na rede.

Por outro lado, os sites significam uma extensão do campo de atuação profissional do professor, que poderá garantir, futuramente, o acesso a um nicho de mercado que é ainda incipiente no Brasil. Nos Estados Unidos, muitos dos sites docentes já são comerciais e, ainda que não cobrem taxas de adesão de seus usuários, têm receita garantida com publicidade, parceria com diferentes lojas, ou com a venda direta de produtos ou serviços.

Talvez esse não seja um projeto profissional, ou mesmo de vida, adequado a todos os professores. Há que se respeitar a falta de tempo de uns, a dificuldade de outros em obter os recursos necessários, o estranhamento de muitos em relação à tecnologia. Mas eu espero que a divulgação dos resultados dessa pesquisa represente um incentivo aos professores que desejam adentrar esse caminho alternativo de comunicação, de trocas, de aprendizagem e de crescimento no contexto de relações solidárias entre colegas. Espero ter deixado a porta aberta, também, para os pesquisadores que decidirem se aprofundar na questão dos sites docentes, infelizmente ainda pouco explorada.

Cada um dos assuntos abordados até esse momento mereceria uma pesquisa à parte: o estreitamento das relações entre professores e seus pares proporcionado pelo meio virtual, os critérios de qualidade para bons sites docentes, as possibilidades e limites dos portais na formação continuada de professores, o desenvolvimento de uma postura reflexiva a partir das trocas na rede. É verdade que, pelo próprio dinamismo que caracteriza a sociedade tecnológica e o espaço virtual, nenhuma conclusão nesse campo poderia ser definitiva. Entretanto, o aprofundamento nessas e outras questões relativas ao potencial da rede na formação autônoma e continuada dos professores condiz com as diretrizes apontadas pela Comissão Internacional sobre Educação para o Século XXI. Segundo os signatários da comissão, este século "exigirá de todos nós grande capacidade de autonomia e de discernimento, juntamente com o reforço da responsabilidade pessoal, na realização de um destino coletivo." Por isso, concluem os redatores, "é preciso explorar todos os "talentos que constituem como que tesouros escondidos no interior de cada ser humano." (Delors, 2001, p.20)

Sites docentes fazem justamente isso: reforçam a responsabilidade pessoal na realização de um projeto coletivo. Estudá-los, divulgá-los, valorizá-los e entendê-los é, portanto, lançar uma luz sobre tesouros que possam estar escondidos entre as opções de crescimento, amadurecimento e de desenvolvimento autônomo do professor.

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