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4.1. RAZÕES QUE LEVAM UM PROFESSOR A SE TORNAR UM PROFESSOR PONTOCOM A rede é uma criação mais social do que tecnológica. Tim Berners-Lee, criador da World Wide Web A Internet deu o seu primeiro passo em 1969, quando os modems de dois computadores remotos - um na costa leste e outro na costa oeste dos Estados Unidos - trocaram a primeira mensagem, que se resumiu a duas letras: I, O. Depois de alguns anos restrita ao uso acadêmico e militar, a troca de informações entre computadores começou a se popularizar a partir da criação da primeira rede de acesso público e livre à Internet em 1986, na Universidade de Case, em Cleveland, e da World Wide Web (WWW) em 1989, na Suíça. A rede mundial de computadores entrou no século XXI com uma estimativa de 420 milhões de usuários, num ritmo de crescimento de cerca de 60% ao ano. Dados assim, tão espetaculares, levaram a uma avaliação perniciosamente otimista sobre o potencial comercial da rede, gerando na década de 90 o que passou a chamar de "bolha especulativa", quando praticamente qualquer produto ou serviço parecia ter potencial para atrair milhares de dólares em investimentos. Pois a bolha estourou em 2000, representando uma perda bilionária para os investidores. Hoje em dia, poucas pessoas investem tempo ou dinheiro em sites na Internet apostando em lucros fáceis e estabilidade financeira. No entanto, o número de páginas não pára de crescer, inclusive as de conteúdo educacional, que são o objeto dessa pesquisa. O que é que move, então, alguns professores a criar e manter um site docente? Vários fatores, segundo ficou evidenciado nas entrevistas. Inclusive razões de ordem prática, conforme demonstra o depoimento de Neil Coghlan, que mantém seu site na ilha de Sardenha, na Itália: "Eu já estava lecionando há oito anos quando eu lancei o site, e eu colocava materiais que eu mesmo tinha desenvolvido nos cinco anos anteriores. Ter acesso tão fácil a todos esses materiais significou que o meu tempo de preparação de aulas caiu. Eu espero que tenha conseguido ajudar outros professores também." Sua colega americana, Kaye Mallory, concorda: "Todos os meus materiais estão organizados num sistema de fácil acesso", diz ela. Essa mesma professora admite que outra razão para manter um site é, em alguns casos, uma certa vaidade criativa. "Eu sou quase famosa! Os professores ficam tão entusiasmados em descobrir que sou eu a webmaster de um site tão bom, que me tratam como uma celebridade. É uma bobagem, eu sei, porque eu sou apenas uma pessoa comum." Neil Coghlan complementa: "É claro que eu fico mais em evidência. Mas a gente não faz um site para isso... se fosse esse o objetivo, seria mais fácil aterrissar de avião na Praça Vermelha." Alguns se tornam, de fato, famosos. Um dos pioneiros no nicho de sites voltados a professores e alunos de inglês, Dave Sperling, fundou o seu ESL Café em 1995, depois de sofrer um acidente de moto que quase o matou e que o levou a querer "fazer alguma coisa a mais na vida" além de ensinar inglês. Em conjunto com seus alunos, Sperling criou uma página usando fotos digitais e pequenos textos produzidos em aula. Em poucas semanas, o projeto começou a atrair visitantes e e-mails de todo o mundo, o que incentivava os alunos a escreverem diariamente e a se comunicarem com maior desenvoltura. Movido pelos resultados do trabalho, ele começou a experimentar outros tipos de páginas. Foi a necessidade de englobar todas essas páginas avulsas num único site que resultou na criação do Dave's ESL Café, por ser um café "um lugar interativo com uma atmosfera legal onde as pessoas se encontram". Hoje, Sperling é conhecido por professores de inglês em 200 países - não só pelo site, mas também pelos livros que escreveu sobre o uso da Internet em sala de aula - , e é também palestrante dos mais requisitados. Em 2003, segundo afirmou em entrevista, irá falar sobre sua experiência como professor e webmaster nos Estados Unidos, Japão, Tailândia e Coréia do Sul. Até um determinado momento, Dave Sperling conseguiu manter o seu site estritamente não-comercial, mas, à medida que o número de acessos cresceu, também o investimento de tempo e dinheiro aumentou consideravelmente. E, para manter o site viável, passou a aceitar publicidade e a cobrar pelos anúncios na seção de empregos. Esse é o caso de vários outros professores entrevistados. Embora o retorno financeiro não tenha se destacado como uma prioridade entre os webmasters consultados nessa pesquisa, vários deles almejam pelo menos o estágio em que serão ressarcidos pelos seus investimentos, como é o caso de Kaye Mallory, webmaster do site English Zone: "Eu quero que o meu site pelo menos cubra os custos de hospedagem e de tempo gasto em programação". Seu colega Peter Snaschall, na Tailândia, também pretende tornar o seu site ESL Flow um projeto economicamente auto-sustentável: "Eu não ganho nada, mas adoraria ganhar. Eu já gastei muito dinheiro no meu site em termos relativos (à minha renda). Às vezes eu acho que sou louco! Eu estou tentando ganhar alguma coisa, como numa parceria com a livraria virtual Amazon, mas até agora não funcionou. Eu acho que quando eu tiver um número maior de hits eu vou começar a ganhar alguma coisa." Também a webmaster brasileira Elen Veneziano encara o seu site com um viés empresarial: "A partir do momento que se tem um site, é como ter o próprio negócio, você pensa nele 24 horas por dia, todo o dia trabalha nele e quando não tem mais idéias, fica lá, só navegando." Sobre o retorno para todo esse empenho e dedicação, ela diz: "Espero que em breve eu consiga ter algum retorno, sim, seja com propaganda ou com serviços." Muitas vezes, embora o webmaster não cobre pelos serviços oferecidos, o site oferece a possibilidade de ganhos indiretos, como explica Ricardo Schütz, do site English Made in Brazil : O site pode ter um impacto decisivo na minha vida profissional. [...] Eu tenho hoje esses clientes que vêm do exterior e que pagam em dólar para comprar a nossa cultura e a nossa língua. Isso é uma fonte de renda importantíssima para nós, tudo uma conseqüência direta da nossa presença na Internet, graças ao conteúdo do site. Então, eu não vejo o site como uma fonte de renda direta, agora indireta, sim. A minha vida inteira já está praticamente em função disso. Pelo menos uma quarta parte dos entrevistados já deixou de lecionar ou reduziu drasticamente as suas horas como professor para se dedicar mais ao site, seja por conta das exigências de tempo ou porque encara esse tipo de trabalho como um novo nicho de mercado na carreira docente. Neil Coghlan já vislumbra a possibilidade de se sustentar com esse tipo de atividade: "Agora eu trabalho meio período em função do tempo que eu gasto diariamente para manter o site, mas também por causa do dinheiro que eu estou ganhando com ele. Meu sonho é 'me aposentar' em três anos e trabalhar numa mini-rede de sites." Para aqueles que têm, entre seus objetivos, o retorno financeiro, três anos de trabalho parece ser o prazo mínimo, segundo as estimativas do professor Kenneth Beare, que levou esse tempo para que seu site se tornasse economicamente viável. A razão é que quanto maior o número de acessos, maior a possibilidade de lucro, mas maior também os custos com hospedagem e equipamentos. "Como esse site é muito importante para mim e se tornou o meu emprego principal, eu já investi cerca de três mil dólares em computadores e equipamentos úteis (desktop e laptop, monitor extra, um scanner, etc) para que eu possa trabalhar simultaneamente em várias telas e ter acesso a várias possibilidades de criação de conteúdo", diz o webmaster do About.com/ESL, que ainda dá aulas de inglês como segunda língua. Segundo suas estimativas, três anos foi o tempo necessário para que o seu site se tornasse economicamente viável. Mesmo em sites conhecidíssimos como o ESL Café, o sucesso chegou bem antes dos lucros: "Eu comecei completamente não comercial em 1995, mas não demorou muito para que se tornasse muito caro manter o site tanto em tempo como em recursos e equipamentos. Eu me tornei uma empresa em 1998 e tenho tido lucro desde 1999", avalia Dave Sperling. Manter um site pode ser uma operação cara, especialmente no começo. Neil Coghlan, que pretende transformar o seu ESL-Lounge num site comercial , estima que gaste mais de 500 dólares em hospedagem, fora a conta telefônica, além das duas horas (no mínimo) de trabalho por dia. Pode parecer estranho que alguém invista tanto dinheiro e trabalho num projeto que não tem nenhuma garantia de vir a render um retorno financeiro. E de fato, como fica evidenciado na fala desse professor, "poucos entram nesse ramo para ganhar dinheiro hoje em dia." No entanto, é preciso lembrar que o retorno de todo esse investimento pode se dar de inúmeras outras maneiras, além das já anteriormente citadas. Um aspecto que parece gerar um fascínio sobre os webmasters entrevistados é a possibilidade de interagir com pessoas de diversos países, talvez porque, como explica Alava (2002, p. 164), "em matéria de partilha de conhecimentos, como ocorre em muitos outros contextos, o interesse nasce da diversidade." Kenneth Beare confirma: Eu tenho prazer em ajudar tantas pessoas de literalmente quase todos os países do mundo. Ainda ontem eu recebi um e-mail de um professor que estava trabalhando na floresta amazônica. Pessoas da China, do Yemem, Egito, Bulgária, etc. me escrevem com freqüência. É incrível estar em contato com tantas pessoas do mundo todo. É gratificante saber que eu estou ajudando as pessoas que talvez não tivessem, de outra maneira, acesso a esses materiais. Esse intenso contato via e-mail com os usuários de outras culturas pode, entretanto, trazer preocupações adicionais para os webmasters: "Eu conheço e converso com pessoas interessantes de todo o mundo via e-mail, mas eu tenho que ser politicamente correta e culturalmente sensível 100% do tempo, o que é quase impossível", admite Kaye Mallory, que também sofre com as mensagens infectadas: "Eu recebo virus de e-mails (entre 2 e 4 por dia) de pessoas que não têm a mínima idéia para que serve um programa anti-vírus." Nenhum destes problemas, contudo, parece diminuir o prazer em receber, na Espanha, "um e-mail da Maria, no Brasil, escrevendo para dizer o quanto ela acha o site útil", ou, nos Estados Unidos, "o feedback interessante e positivo de professores e alunos ao redor do mundo". Em outras palavras, como bem resume Neil Coghlan, "você se sente como se seu trabalho estivesse realizando mais quando está 'lá fora', fazendo o bem para dezenas de milhares de outros professores." Assim, apesar da vastidão geográfica que muitas vezes separa esses docentes, existe um sentimento de pertinência que se mescla com o de solidariedade e que se torna um atrativo a mais para a construção de sites que, de uma maneira bastante direta, estimulam essa forma de interação na rede. Segundo Lévy (1993, p.23), a transmissão de informações é a primeira função da comunicação, mas, "em um nível mais fundamental, o ato de comunicação define a situação que vai dar sentido às mensagens trocadas. A circulação de informações é, muitas vezes, um pretexto para a confirmação recíproca do estado de uma relação." Os sites para educadores de uma área determinada do conhecimento, no caso o inglês, se tornariam, sob essa ótica, "a maior sala de professores do mundo, com professores lanchando juntos e passando idéias uns para os outros", na metáfora criada por Neil Coghlan. Quando Tim Berners-Lee "inventou" a World Wide Web em 1989, na forma de um programa que se utilizava do hipertexto para permitir que textos e figuras fossem captados por qualquer computador, ele abriu mão do lucro para tornar a sua criação um domínio público. Mais do que uma atitude rara e elogiável, essa foi uma postura coerente de quem concebeu a rede pelo seu "efeito social -para ajudar as pessoas a trabalharem juntas-e não como um brinquedo tecnológico." Segundo o criador da Web, o seu objetivo foi o de "dar suporte e de melhorar a nossa existência no mundo como uma rede." (Berners Lee, 1999, p. 123) Ao dar materialidade ao projeto de Berners-Lee através de seus sites para professores, os webmasters estão estruturando comunidades em torno de um conjunto de conhecimentos partilhados e, assim, beneficiando outros indivíduos ou grupos. Isso constitui, segundo Alava (2002, p. 168) "uma aposta essencial para uma sociedade na qual todos serão levados a aprender com os outros no contexto de uma relação pedagógica que eclode no espaço." Esse autor acredita ainda que as necessidades de formação no século XXI serão tais que nenhum sistema educativo será capaz de satisfazê-las completamente. É urgente, portanto, que se tenha alternativas aos modos de educação e formação praticados hoje (...) Para nós, a aprendizagem baseada na partilha de conhecimentos constitui uma das vias dessa desregulamentação, em particular por meio das possibilidades de abertura propiciadas pelo uso de redes de comunicação à distância. (p. 168-9) É justamente nesse ponto que se mesclam os sentimentos de solidariedade e de pertinência. A principal vantagem da construção e manutenção do seu site, diz Ricardo Schütz, "é o reconhecimento do público": o seu público, feito de pessoas que, como ele, interessam-se pelo ensino e aprendizagem da língua inglesa. "Os conselhos de colegas são imprescindíveis", comenta Neil Coghlan. "Quando eu completei o meu curso de TEFL [ensino de inglês como língua estrangeira] em 1993, a minha primeira prática docente foi lecionar outros professores, que ensinavam e aprendiam uns com os outros. O uso de sites como o meu é um equivalente moderno para o peer advice." Os investimentos dos webmasters para a criação e manutenção de sites - em tempo, equipamentos, hospedagem e telefonia - são inegavelmente consideráveis, mas o prazer dessa troca com os usuários está igualmente presente, como podemos observar na fala de Ellen Veneziano: "pela Internet você pode atingir e ajudar muita gente: dar suporte, aprender, interagir com pessoas de sua área. Isso é muito gratificante". Segundo Alava (2002, p. 167-8), Em um contexto de partilha de conhecimentos, cada um recebe e cada um oferece para enriquecer o conhecimento comum. Contrariamente ao que se passa na troca de bens materiais, em que a partilha reduz a parte que cabe a cada um, aquele que partilha o seu conhecimento com os outros enriquece a si mesmo, ao confrontar o seu conhecimento com o de outros. (...) A maneira como as comunidades podem estruturar-se em torno de um conjunto de conhecimentos partilhados e beneficiar outros indivíduos ou grupos constitui uma aposta essencial para uma sociedade na qual todos serão levados a aprender com os outros no contexto de uma relação pedagógica que eclode no espaço. Além de aprender a partir das trocas com os usuários, a própria natureza do trabalho de manutenção dos sites, associada a uma evolução constante das possibilidades tecnológicas, faz com que os webmasters tenham de ampliar constantemente os seus conhecimentos técnicos. Muitos, de fato, construíram um site especificamente para aprenderem a lidar melhor com essa nova tecnologia através da aplicação das técnicas de web design, como é o caso de Allistair, que mantém o site Developing Teachers na Espanha: "Eu comecei o site para ensinar a mim mesma a planejar e a publicar sites na rede. A partir daí tudo cresceu como uma bola de neve e eu estou esperando para ver onde ela vai." Kaye Mallory também aprendeu na prática a programar e a fazer páginas para o seu site. "Eu aprendi, de fato, fazendo", explica. Ou seja: construiu o seu conhecimento empirica e significativamente, como gostaríamos que acontecesse também com nossos alunos. Provavelmente, as professoras acima referidas compreenderam que, como nos mostra Alava (2002, p. 49), "uma tecnologia não constitui em si uma revolução metodológica, mas reconfigura o campo do possível. E essa oportunidade que evocamos apenas será dada aos aprendizes se, primeiramente, os professores a perceberem, apropriarem-se dela e a dominarem. Em outras palavras, se a compreenderem." Ainda segundo Alava (p. 67), essa abertura para novos conhecimentos na área tecnológica não é a regra entre os professores: O computador, a rede, os dispositivos mediatizados vêm mudar o contexto técnico de atividade e de interação e, portanto, perturbam os equilíbrios sociocognitivos preexistentes. (...) Assim, as resistências dos professores são sinais de uma recontextualização das práticas profissionais. (...) Das ilusões aos usos, o profissional deve cumprir uma trajetória que o leve a rever sua caixa de ferramentas didáticas e pedagógicas. Em geral solitários, de forma autônoma, os formadores constróem, então, um novo ofício de ciberprofessor. Assim, professores que vencem a barreira de resistência em relação às tecnologias de comunicação e informação para fins educacionais sabem que estão dando um passo à frente no que diz respeito à sua formação profissional e, de fato, chegaram a mencionar em entrevista que "ter um site parece ajudar bastante na hora de se candidatar a um emprego." Ensina-nos Hugo Assmann (2001, p.41) que "quando alguém aprende algo novo, não é apenas esse elemento novo - motórico, lingüístico, conceitual, etc. - que se acrescenta ao que supostamente já foi adquirido, mas ocorre uma reconfiguração do seu cérebro/mente inteiro enquanto sistema dinâmico." Aprender a programar e manter um site, portanto, não se trata apenas de adquirir mais uma habilidade a ser adicionada no currículo: trata-se de, nas palavras de Assmann (idem, p. 68), "desaprender coisas por demais sabidas", ou ainda "esquecer linhas demarcatórias dos significados já estabelecidos e criar outros significados novos." Trata-se, portanto, de não ter medo de se desacomodar; de encarar com entusiasmo o novo e os desafios que ele representa. |
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