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1. INTRODUÇÃO - Texto Integral

Muito tem sido pesquisado, escrito e publicado sobre os usos, possibilidades e limitações da Internet na educação, mas quase sempre sob o ponto de vista da tecnologia a serviço do aluno. Novas propostas educacionais, como o ensino a distância, vêm atraindo cada vez mais adeptos e ampliando o leque de opções de cursos em todos os níveis. Instituições investem nesse novo - ou não tão novo - nicho de mercado, apostando no ensino online como capaz de captar mais alunos, aumentar a sua abrangência no mercado e, conseqüentemente, atrair mais recursos.

Um outro aspecto da Internet na educação vem sendo, entretanto, negligenciado: o uso da tecnologia virtual a serviço do professor. Não o professor que entra na rede pela intimidação, ou seja, pelo tom quase generalizado de que "a apropriação das novas tecnologias por todos é que permitirá a atuação profissional na atual cultura tecnológica" (STAHL, 1997, p. 293). A Internet só passará a ser uma ferramenta verdadeiramente valiosa para aqueles professores que não a considerarem uma ameaça - seja ao emprego ou ao seu papel na comunidade educativa -, mas um instrumento do que Pierre Lévy chama de inteligência coletiva. Na opinião desse autor, as redes de computadores suportam tecnologias intelectuais que potencializam capacidades cognitivas como a memória, o raciocínio, a capacidade de representação mental, e a percepção.

O domínio dessas tecnologias intelectuais dá vantagem considerável aos grupos e ambientes humanos que fazem uso adequado delas. Favorece, ainda, o desenvolvimento e a manutenção de processos de inteligência coletiva, pois exteriorizando uma parte de nossas operações coletivas, as tecnologias intelectuais de suporte digital as tornam, em grande medida, públicas e partilháveis. (LÉVY, 2001, p. 29)

É evidente que nós, profissionais da educação, somos compelidos a atualizarmo-nos sempre em função de vivermos em um mundo em constante transformação, e que a Internet tem se tornado uma fonte de formação, informação, aprimoramento e comunicação entre professores de diferentes escolas, cidades, estados e até mesmo países. Mas isso, no que se refere à aplicabilidade das tecnologias de informação e comunicação à educação continuada de professores, é apenas o senso comum. A rede pode ir além; pode levar a um novo paradigma nas relações entre docentes, de uma forma muito semelhante - embora restrita - ao que Michel Maffesoli considera como um novo tribalismo, ou seja, um novo paradigma que se opõe à lógica individualista. Segundo Maffesoli (1998, p.137), "a constituição em rede dos microgrupos contemporâneos é a expressão mais acabada da criatividade das massas."

Um exemplo desse fenômeno é o imenso banco de dados virtual que hoje possibilita trocas significativas entre professores de inglês de todo o planeta. Proliferam na Internet, sobretudo com base nos Estados Unidos, os sites mantidos por professores e voltados exclusivamente às questões do ensino e aprendizagem de língua inglesa, aos quais eu me referirei, nesse trabalho, como sites docentes. Embora essa seja uma iniciativa ainda incipiente no Brasil, muitos professores de inglês no nosso país já recorrem à Internet para manterem-se atualizados profissionalmente, e alguns já se aventuram, através da construção de seus próprios sites, a compartilharem conhecimento e experiência via World Wide Web. Esse comportamento também se verifica entre professores de outras áreas do conhecimento.

A existência desses sites é decorrência, em grande parte, do espírito de cooperação e de curiosidade epistemológica desses mesmos profissionais, cuja maior recompensa é o simples prazer de estarem em contato com colegas cujos interesses e objetivos são afins, e cujos conhecimentos podem complementar os seus. Não é, via de regra, a recompensa financeira que os move. Compartilham informações, mas ao mesmo tempo aprendem; disponibilizam materiais, mas em contrapartida recebem o feedback de colegas espalhados pelo país e não raro pelo mundo. Com um mesmo instrumento, divulgam o seu trabalho e familiarizam-se com ferramentas de web design que os tornam profissionais ainda mais completos.

Desde 1999, mantenho um site não-comercial para professores de idiomas, o qual me possibilita justamente esse intercâmbio de informações, de experiências e de saberes relativos ao ensino de língua estrangeira. Registrado sob o URL (endereço) www.linguaestrangeira.pro.br, o site recebe em média três mil acessos e 20 e-mails mensais, o que é extremamente pouco se tomarmos por base os sites docentes mais conhecidos, sobretudo os comerciais, mas mesmo assim um retorno inestimável para as três horas semanais que eu dedico à sua atualização.

Não sou, sob nenhum aspecto, uma especialista em informática. Nem é preciso, com os novos softwares de criação e edição de páginas na Internet, os quais não exigem dos webmasters mais do que noções rudimentares das linguagens de programação, como o html. Meus conhecimentos sobre web design foram sendo construídos à medida em que eu deles precisava, assim como as seções e páginas do site Língua Estrangeira foram sendo desenvolvidas aos poucos, a partir da interlocução com os usuários, dentro dos limites da minha disponibilidade. A construção do site, portanto, se deu paralelamente à construção do meu próprio conhecimento.

A "recompensa" pelo tempo e esforço dispensados a essa tarefa se faz presente sob vários aspectos. Há as trocas - afetivas, acadêmicas, de materiais - com os usuários, as quais enriquecem-nos mutuamente, além da questão da educação continuada que o site me permite, não apenas no que diz respeito às noções de web design, citadas anteriormente, mas também na pesquisa que eu realizo para poder responder às perguntas dos usuários ou disponibilizar materiais interessantes nas diferentes seções do site. Além disso, há o reconhecimento do meu trabalho, que pode se dar de duas formas: pelos visitantes, que expressam suas opiniões através de e-mail, ou pela mídia, que eventualmente publica notas ou artigos em que o nome do site é citado. Este foi o caso em uma nota veiculada pela revista da Web em abril de 2001 e de uma reportagem publicada pela revista Nova Escola em julho do mesmo ano. Nessa última reportagem, o coordenador do Núcleo de Informática Aplicada à Educação da Unicamp, professor José Armando Valente, resume as vantagens de se tornar o que a revista chamou de Professor Pontocom: "O educador abre uma janela para que todos vejam o que ele faz em sala de aula. Além disso, o trabalho na rede vira uma oportunidade de refletir sobre a própria metodologia e aprimorá-la com as críticas e sugestões que chegam por e-mail."

É essa interatividade entre usuários e webmasters que permite aos primeiros se verem não apenas como receptores das informações disponibilizadas na rede, mas como potenciais emissores, se desejarem assumir essa função. Não é o caso do site Língua Estrangeira, mas inúmeros sites docentes disponibilizam fóruns de discussão e salas de bate-papo (chats) em que professores são convidados a compartilhar com outros visitantes, praticamente em tempo real, as suas experiências, dúvidas, preocupações e necessidades no que diz respeito à sua prática pedagógica. Podemos sustentar que "graças às redes, à viagem cibernética dos bits pelo novo espaço virtual, vemo-nos submersos em uma espécie de diálogo universal e multiforme, sem fronteiras aparentes nem outras limitações senão a que impomos a nós mesmos." (CEBRIÁN, 1998, p. 49-50).

Para Heide e Stilborne (2000, p. 16),

Os veteranos no movimento de aplicação da tecnologia na educação costumam dizer que um professor aprende melhor com outro professor. Felizmente, os professores que têm acesso fácil à Internet estão descobrindo, inventando e compartilhando tipos de práticas e programas em suas próprias salas de aula que ilustram a verdadeira reforma educacional. Como a Internet é uma ferramenta de comunicação extremamente eficiente, esses professores estão procurando uns aos outros, compartilhando suas experiências e organizando-se de novas maneiras nas escolas.

A fim de melhor conhecer esse e outros fenômenos agregados, o objetivo dessa pesquisa na área dos sites docentes é analisar, em maior profundidade, as relações de trocas virtuais - principalmente de informações, experiências e materiais- que se tornam possíveis através da interatividade e da abrangência da Internet. O estudo terá como foco professores de língua inglesa, falantes nativos ou não, que mantêm sites.

São também de meu interesse as questões abaixo, que apresento como objetivos secundários:

· Analisar as vantagens, ou recompensas, de se manter um site docente, além do estreitamento das relações entre professores e seus pares;

· Identificar, na perspectiva dos professores entrevistados e na bibliografia especializada, critérios de qualidade de sites docentes;

· Estabelecer possibilidades e limites dos sites docentes na formação continuada dos professores de língua inglesa; · Avaliar o impacto, na prática pedagógica dos professores, da experiência de manter um site docente.

Ao relatar o resultado das investigações que concernem tais objetivos, espero estar estimulando a criação de sites por um número mais expressivo de professores, e assim contribuindo para a ampliação do intercâmbio e parceria entre docentes em geral e professores de língua estrangeira em particular.

Com base nos objetivos acima citados, o estudo deverá responder à seguinte questão de pesquisa: Qual o contribuição dos sites docentes para a formação continuada do professor de língua inglesa e qual o impacto dessa ferramenta na prática pedagógica de seus webmasters?

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