4.4. SITES DOCENTES E SEU IMPACTO NA AÇÃO PEDAGÓGICA DOS PROFESSORES - Texto na íntegra

O desenvolvimento pessoal precisa de outras pessoas: colegas e alunos. Cooperando com outros, nós podemos compreender melhor nossas próprias experiências e opiniões. Julian Edge

O crescimento pessoal e profissional que ocorre a partir do contato com outros colegas, proporcionado pela experiência de manter um site docente, é um dos aspectos que mais se destacam nas declarações dos professores ouvidos nessa pesquisa. Essa é uma constatação de certa forma surpreendente, pois o foco das trocas que ocorrem nos sites para professores está prioritariamente no usuário, ou seja, todo o trabalho envolvido na criação e manutenção de um site tem como objetivo atender às necessidades e promover o crescimento profissional do visitante dos sites. Isso fica evidenciado na fala do webmaster Kenneth Beare, que diz seguir as estatísticas do site e priorizar aquilo que está gerando maior interesse. "Por exemplo, professores gostam de planos de aula, então eu tento fazer uma nova lição a cada duas semanas, mais ou menos. Exercícios de gramática e de vocabulário também são populares, então eu tento criá-los regularmente."

Conclui-se, pelo teor das declarações, que os webmasters encaram o seu próprio crescimento profissional como uma conseqüência, e não como um objetivo do seu trabalho nos sites. Via de regra, sentem-se suficientemente recompensados em saber que o seu trabalho agrada e, de alguma maneira, está sendo útil a alguém. Esse tipo de feedback costuma vir em forma de e-mails e se tornam uma fonte de orgulho para webmasters como Neil Coghlan, responsável pelo site ESL Lounge: "Muitos dos comentários que eu recebo dos usuários enfatizam o prazer que tanto eles quanto seus alunos têm ao experimentar os materiais disponibilizados no site".

Mas nem só de elogios é feita a comunicação entre webmasters e usuários. E-mails, salas de bate-papo e fóruns virtuais são ferramentas que permitem aos internautas assumirem-se como produtores, e não apenas como receptores de conhecimento: num grau variável de interatividade, dependendo das limitações técnicas do site, contribuem com perguntas, textos, sugestões, respostas a dúvidas de colegas, e até planos de aula. Como gerenciadores de todo esse aporte de informações, os webmasters não podem deixar de se beneficiar. Um deles, Dave Sperling, afirma que começou "a aprender com outros professores ao redor do mundo" depois da criação do seu site ESL-Cafe e, dando o exemplo da seção Idea Cookbook, onde professores relatam e compartilham práticas exitosas que protagonizaram com seus alunos, declara: "isso melhorou a qualidade da minha prática pedagógica".

Para entendermos de que forma ocorre essa "melhora" apontada por Sperling - talvez melhor expressa como "crescimento profissional" - é preciso que se tenha em mente as diferentes maneiras de conceber a prática educativa, bem como as estratégias que os professores utilizam para fazer frente às exigências que a sua realidade de ensino lhes apresenta. De uma forma bastante sucinta, tendo por base autores como PÉREZ GÓMEZ e SACRISTÁN, podem-se distinguir quatro perspectivas básicas na função e formação docente:

· a perspectiva acadêmica, em que o professor é um especialista na disciplina que ministra, estando a sua formação vinculada ao conteúdo que irá transmitir. O domínio das técnicas didáticas para uma transmissão mais eficaz, ativa e significativa dos conteúdos constitui as competências fundamentais do professor dentro desse enfoque;

· a perspectiva técnica, na qual os professores deverão ser treinados para enfrentar os problemas que encontram em sua prática a partir da aplicação de teorias e técnicas científicas, selecionadas com base em condutas exitosas que se relacionem com um elevado desempenho acadêmico por parte dos estudantes;

· a perspectiva prática, a qual considera o ensino como uma atividade complexa que se desenrola em cenários singulares para cada contexto, priorizando, na formação de professores, o convívio com docentes experimentados, onde há uma aprendizagem da prática, para a prática e a partir da prática;

· a perspectiva da prática reflexiva (ou perspectiva de reflexão na prática para a construção social) na qual o professor é visto como um profissional que, a fim de melhor compreender o processo de ensino e aprendizagem, precisa refletir criticamente sobre a sua prática cotidiana. O objetivo dessa prática reflexiva é o desenvolvimento autônomo por parte de todos os envolvidos no processo educativo, principalmente do próprio professor.

É importante frisar que, como toda a proposta de classificação nas ciências humanas, há limites difusos entre as diferentes perspectivas, as quais muitas vezes se sobrepõem. Também é preciso deixar claro que a familiaridade com a tecnologia digital, seja ela na forma de sites ou de qualquer outro recurso oferecido pelo computador, não garante, por si só, o crescimento profissional. Há professores que usam a tecnologia como instrumento de formação continuada e até mesmo no seu cotidiano pedagógico, sem promover mudanças substanciais no papel que desempenham junto aos alunos. Exemplos disso podem ser encontrados nas falas de alguns entrevistados. Perguntada sobre o que considera uma boa aula, uma das webmasters respondeu: "É aquela em que nós trabalhamos como um time: eu sou a treinadora, eles são os jogadores. Eu os guio, e eles me ajudam estando preparados para aprender." Apesar de ter incluído na sua metáfora a ressalva de que no time "os alunos ajudam uns aos outros", fica claro que, na concepção dessa educadora, ao bom professor cabe a tarefa de dirigir, gerenciar e controlar o processo de ensino, assumindo a parcela maior de responsabilidade.

Com freqüência, constata-se que a ênfase dos materiais disponibilizados nos sites para professores recai sobre os planos de aula, sugestões de atividades e materiais fotocopiáveis. O próprio foco no usuário, mencionado anteriormente, pode explicar essa preferência por parte dos webmasters, uma vez que tais recursos são, de fato, bastante procurados e valorizados pelos visitantes. Outra possibilidade, porém, é que tanto os webmasters quanto os usuários que fazem uso desses materiais tenham introjetado - ao longo de toda uma caminhada como alunos e docentes - conceitos de ensino e de currículo compatíveis com a perspectiva técnica.

Isso não os torna, de maneira nenhuma, maus professores. São professores que, ao contrário, buscam o crescimento profissional através da tecnologia e do contato com colegas, e que caminham, impulsionados pelas trocas que essa experiência lhes proporciona, em direção a uma prática mais reflexiva. Segundo Zeichner (1993, p. 26), "existe a tentativa de construir comunidades de aprendizagem , nas quais os professores apoiam e sustentam o crescimento uns dos outros. [...] Esse compromisso tem um valor estratégico importante para a criação de condições visando à mudança institucional e social."

E essa mudança se verifica, efetivamente, na fala de vários entrevistados. "A minha prática evolui constantemente, eu espero", testemunha Leslie Opp-Beckmann, do site Pizzaz. "Mas eu definitivamente ensino mais online agora do que em meados dos anos 90, [quando eu criei o site]." A "evolução" a que Leslie se refere pode ocorrer, também, em função da constante busca de informações, que é tarefa inerente à criação e manutenção de um site desta natureza.

O objetivo de uma prática reflexiva, entretanto, vai além das inovações metodológicas e da incorporação da pesquisa na rotina do professor. Segundo lembra Zeichner (1993, p. 15),

na última década , os termos prático reflexivo e ensino reflexivo tornaram-se slogans da reforma do ensino e da formação de professores por todo o mundo [...] No meio de toda essa atividade de investigadores da educação, formadores de professores e professores, tem havido muita confusão sobre o significado, em casos particulares, do termo reflexão e de outros termos estreitamente relacionados a eles, como "investigação pelos professores" ou "emancipação". Chegou-se mesmo ao ponto de incorporar no discurso sobre prática reflexiva tudo aquilo em que se acredita dentro da comunidade educacional acerca do ensino, aprendizagem, escolaridade e ordem social. Assim, por si só, o termo reflexão perdeu virtualmente qualquer significado.

Uma prática efetivamente reflexiva implica, ainda segundo Zeichner (p. 16), "o reconhecimento de que os professores são profissionais que devem desempenhar um papel ativo na formulação tanto dos propósitos e objetivos de seu trabalho, como dos meios para os atingir; isto é, o reconhecimento de que o ensino precisa voltar às mãos dos professores."

Sob esse prisma, todos os webmasters entrevistados são, pelo menos potencialmente, professores reflexivos, pois compartilham a opinião de Zeichner (1993, p. 16) de que "a produção de conhecimentos sobre o que é um ensino de qualidade não é propriedade exclusiva das universidades e centros de investigação e de desenvolvimento, e que os professores também têm teorias que podem contribuir para uma base codificada de conhecimentos do ensino." Reconhecer-se como agente de formação é um dos significados de reflexão no entender desse autor, que, no entanto, considera a rejeição irrefletida dos conhecimentos produzidos pela universidade um erro tão grande quanto a rejeição dos conhecimentos dos professores. O que falta à universidade, acredita ele, é um maior reconhecimento em relação à riqueza da experiência que reside na prática docente. Isso se confirma na fala de Ricardo Schütz quando diz: "O conhecimento teórico sobre o aprendizado de línguas que o nosso site mostra é um conhecimento muito diferente do conhecimento transmitido na maioria dos cursos de Letras [...] Eu posso avaliar que a essência do que está no nosso site são assuntos desconhecidos no curso de Letras, pelo menos aqui da nossa universidade local."

Esse descompasso entre a base de conhecimentos teóricos oferecida pelas universidades e as necessidades reais da prática docente é criticado, também, por Schön (1992, p. 21): "A crise de confiança no conhecimento profissional corresponde a uma crise similar na preparação dos professores. [...] O que os aspirantes a profissionais mais necessitam aprender sobre a prática é aquilo que os centros de preparação destes profissionais parecem menos capazes de ensinar."

Muitos dos webmasters entrevistados demonstram tomar para si a incumbência de diminuir essa distância entre o conhecimento acadêmico e os saberes exigidos na prática cotidiana dos professores de língua inglesa, especialmente através do compartilhamento de recursos que podem ser úteis a colegas menos experientes, ou que não dispõem de muito tempo. Esse é o caso de Kaye Mallory: "O objetivo do site English-Zone é proporcionar aos professores de inglês materiais fáceis de usar que podem ser impressos, além de exercícios, testes, e lições, [...] a maioria desenvolvida para o uso nas minhas próprias aulas."

Apesar das boas intenções que via de regra subjazem a esse tipo de atitude, Barbara Dieu aponta uma conseqüência nociva que pode ocorrer na outra ponta, a dos usuários: "Alguns professores se acostumam a utilizar o material sugerido sem refletir se é útil ou não dentro do contexto em que ensinam." Isso é, segundo Zeichner (1993, p. 17), uma conduta contrária ao que supõe uma prática reflexiva:

O conceito de professor como prático reflexivo reconhece a riqueza da experiência que reside na prática dos bons professores. Na perspectiva de cada professor, significa que o processo de compreensão e melhoria do seu ensino deve começar pela reflexão sobre a sua própria experiência, e que o tipo de saber inteiramente tirado da experiência dos outros (mesmo de outros professores) é, no melhor dos casos, pobre e, no pior, uma ilusão.

Esse autor considera ainda que

os professores que não refletem sobre o seu ensino aceitam naturalmente a realidade cotidiana das suas escolas, e concentram seus esforços na procura dos meios mais eficazes e eficientes para atingirem os seus objetivos e para encontrarem soluções para os problemas que outros definiram no seu lugar. É freqüente esses professores esquecerem-se de que a sua realidade cotidiana é apenas uma entre muitas possíveis, e que existe uma série de opções dentro de um universo de possibilidades mais vasto. [...] Existe mais do que uma maneira de abordar um problema. (ZEICHNER, 1993, p.18)

A prática reflexiva existe de fato, portanto, quando os professores - sejam eles webmasters ou usuários - são capazes de agir com autonomia e, mesmo divulgando ou utilizando receitas pedagógicas, assumem o papel de condutores do seu fazer pedagógico. O problema não está propriamente nas receitas, e sim no seu uso indiscriminado e automático, sem a necessária reflexão sobre a prática. Para adaptá-las ao seu contexto pedagógico, é preciso que o professor que as utiliza abuse de "temperos" como discernimento, criatividade e senso crítico. Essa regra é especialmente válida no ambiente virtual, uma vez que alguns sites são desenvolvidos em países muito diferentes do Brasil no que diz respeito à cultura e à realidade de ensino.

Por outro lado, a visita freqüente a sites docentes pode acabar por desenvolver o desprendimento e a autonomia necessários para uma avaliação crítica dos materiais disponíveis. Numa breve passagem pela seção Idea Cookbook do site ESL Cafe, anteriormente citada por Dave Sperling, é possível ter acesso a centenas de atividades sugeridas por professores em diferentes países. Obviamente, o visitante que acessa essa página terá de escolher, entre as diversas opções, aqueles planos de aula que melhor contemplam o perfil dos seus alunos e da escola onde trabalha. Esse exercício de seleção poderá contribuir, à medida que essa prática se torna mais freqüente, para uma postura mais crítica e autônoma em relação ao conteúdo pedagógico e informativo dos sites.

É certo que, entre os vários caminhos que levam a uma prática reflexiva, a experiência - talvez melhor entendida aqui como atuação profissional em ambientes de ensino - tem um destaque significativo. O ambiente virtual, através das trocas que nele ocorrem, pode contribuir para enriquecer essa experiência, mas não a substitui. Afinal, é na prática em sala de aula que os problemas se apresentam e precisam ser enfrentados. Segundo Schön (1992, p.26),

inerente à prática daqueles profissionais que reconhecemos como especialmente competentes, existe uma fundamentação artística. [...] Existe uma arte de definição do problema, uma arte de sua colocação em prática e uma arte da improvisação: todos são necessários para mediar o uso na prática da ciência aplicada e da técnica.

Indubitavelmente, a caminhada em direção a uma prática reflexiva exige que aprendamos a encontrar dentro de nós mesmos a solução para os problemas que o cotidiano do ensino nos impõe. Mas essa necessária introjeção não significa, necessariamente, que devamos deixar de levar em consideração as sugestões, críticas, experiências e opiniões de outros professores. No entender de Bailey, Curtis e Nunan (2001, p. 12),

para servir ao nosso próprio desenvolvimento, nós precisamos uma maneira de trabalhar que nos encoraje a olhar mais de perto para nós mesmos e trabalhar com o que nós encontramos. Mas essa ênfase no self não significa que nós deveríamos trabalhar isoladamente. O isolamento do professor é justamente o que o retém. Nós regularmente limitamos o ensino a um indivíduo e não compartilhamos experiências subjetivas com ninguém. Como resultado direto disso, nós restringimos nossa habilidade de nos desenvolvermos como professores, e delegamos a pessoas de fora questões importantes sobre o que é ensino de qualidade e como ele pode ser implementado.

A caminhada para uma prática reflexiva depende, portanto, de diferentes fatores:

· da capacidade de olhar criticamente para si e para a sua própria prática sem, no entanto, perder o contato com o outro;

· do desenvolvimento de um senso de autonomia profissional que reconhece a riqueza e a importância da experiência docente;

· do reconhecimento de que a produção de conhecimentos sobre o que é um ensino de qualidade não é propriedade exclusiva das universidades e centros de pesquisa acadêmica;

· da compreensão de que as soluções para os problemas cotidianos não podem ser tiradas inteiramente das experiências e ensinamentos de outros professores, ainda que mais experientes;

· da constituição de grupos ou comunidades de professores, nas quais uns sustentam o crescimento dos outros.

Um último fator, não citado anteriormente, merece destaque na caminhada rumo ao crescimento profissional e à pratica reflexiva: a consciência de que o processo de aprender, e de aprender a ensinar, se prolonga por toda a vida. Talvez essa consciência seja o que mais impele os webmasters a construírem e manterem seus sites, enfrentando cotidianamente os novos desafios que esse projeto lhes apresenta. Esse é o caso da professora Barbara Dieu:

Para criar um site é preciso não somente informação, conhecimento na área, organização e método, como também aprender uma nova linguagem de comunicação (técnica e visual). A permanente evolução exige uma atualização constante e isso nos faz sair de nossa rotina e hábitos arraigados. Os erros e acertos, experiências e prática nos fazem refletir sobre nosso próprio processo de aprendizado e questionar nossa prática de ensino.

E as conseqüências desse processo de avaliação crítica se fazem sentir, ainda segundo Barbara, no contato com os alunos: "Em sala de aula, comecei a dar mais atenção e me envolver mais no processo de ensino e aprendizagem e refletir como isso ocorre após cada aula. Estou muito mais envolvida em projetos educacionais internacionais e tento fazer os alunos dialogarem e interagirem mais com outros."

Podemos concluir, portanto, que a experiência de construir e manter um site docente desempenha um papel acelerador no crescimento profissional e pedagógico dos webmasters entrevistados. Esse impacto é decorrente da própria rotina de gerenciamento dos sites, a qual inclui o contato ampliado com colegas de todo o mundo, a pesquisa, a prática solidária de compartilhar materiais e informações, a iniciativa de criar conhecimento paralelamente aos grandes centros de formação, a atualização constante e o desenvolvimento de uma postura mais crítica e reflexiva em relação à própria prática.

Talvez nem todos os webmasters entrevistados tenham se tornado, ou venham a se tornar, professores reflexivos. Sequer se pode afirmar que tenham se tornado professores melhores, porque há várias opiniões sobre o que significa um ensino de qualidade, conforme as diferentes perspectivas de formação de professores. Mas que estão caminhando, crescendo, se emancipando, disso não há dúvidas. E, como se sabe, até as longas jornadas começam pelo primeiro passo.

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