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2. CONTEXTUALIZAÇÃO TEÓRICA 2.2. CIBERCULTURA, SITES DOCENTES E NOVAS FORMAS DE INTERAÇÃO A evolução cultural da raça humana, que se iniciou pelo nascimento da linguagem e se intensificou, ao longo dos séculos, pela invenção da escrita e da imprensa, tem no desenvolvimento do ciberespaço o seu avanço mais recente e a base para futuras evoluções. Segundo Lévy (2000, p. 63), "a escrita, o alfabeto, a imprensa, o ciberespaço, cada estágio, cada camada integra a sua precedente e conduz a uma nova diversificação e expansão do universo cultural. [...] A invenção da escrita representa a continuação cultural e o aperfeiçoamento da linguagem e, portanto, da inteligência coletiva humana." A alfabetização, antes vinculada apenas ao domínio da linguagem escrita, toma contornos mais amplos no atual paradigma tecnológico. A alfabetização em computadores (computer literacy) já é vista como crucial e indispensável para que um indivíduo possa funcionar efetivamente num mundo cada vez mais dependente das tecnologias de informação e comunicação. A habilidade de manejar um computador, bem como a compreensão do que ele pode fazer por nós, terá de ser ensinada na escola, tanto quanto outras habilidades básicas como ler, escrever, adicionar e multiplicar. Coletivamente, os defensores dos ciberalfabetismos formam uma vasta rede e oferecem uma agenda pedagógica mais rica do que aquela que está comumente disponível em outros locais. De forma sintética, eles falam de alfabetismos da informação, bem como de alfabetismos mistos, alfabetismos modais e alfabetismos da multimídia. Eles enfatizam que é necessário que os estudantes se movimentem entre o alfabetismo da escrita e outros alfabetismos, que utilizem uma gama de formas tecnológicas de comunicação e que "leiam" uma ampla gama de tipos de textos. (KENWAY, 1998, p. 101-2) O objetivo maior dessa familiarização com os recursos tecnológicos disponíveis é a possibilidade de criação de comunidades cognitivas que permitam novas e ampliadas formas de desenvolver e armazenar conhecimento, bem como de relacionamento e comunicação com pessoas cujos interesses são afins. Segundo Sculley (apud STAHL, 1998, p. 293), hoje, e cada vez mais, nós somos um "nó" de uma rede que se estende por todo o planeta, fazendo surgir a necessidade de encontrar novas formas de relacionamento e de criar novos valores para o mundo. As redes de telecomunicações possibilitam criar e manter grupos de pessoas separadas em tempo e espaço, formando verdadeiras "comunidades eletrônicas". O estabelecimento dessas comunidades eletrônicas, sobretudo no campo da educação, tem propiciado a exposição e compreensão de outras culturas e pontos de vista, além da cooperação em pesquisa e tecnologia. Esse é, segundo Maffesoli (1998-b, p. 13), um fenômeno pós-moderno, pois ao desencanto causado pela tecnologia durante a modernidade contrapõe-se agora a tecnologia que favorece um real reencantamento do mundo. Para enfatizar tal fenômeno, podemos falar de (re)nascimento de um "mundo imaginal", ou seja, de uma maneira de ser e de pensar perpassadas pela imagem, pelo imaginário, pelo simbólico, pelo imaterial. A imagem como "mesocosmo", isto é, como meio, vetor, elemento primordial do vínculo social. Seja qual for a maneira de expressão do "imaginal", virtual, lúdico, onírico, ele estará presente e, pregnante, não será mais relegado à vida privada e individual, mas figurará como elemento constitutivo de um estar-junto fundamental. O mesmo autor diz ainda que as diversas instituições sociais, tornadas cada vez mais abstratas e desencarnadas, não parecem conectadas com a reiterada exigência de proximidade. Daí a emergência de um neotribalismo pós-moderno baseado, como sempre, na necessidade de solidariedade e de proteção que caracterizam o grupo social. [...] O termo indivíduo, já o disse, parece-me superado, ao menos no sentido estrito. Talvez se deva falar, quanto à pós-modernidade, em uma persona que desenvolve diversos papéis nas tribos às quais adere. (Ibidem, p. 11 e 12) As "tribos" a que Maffesoli se refere transcendem o ambiente educativo; podem ser constatadas em qualquer área do viver. Entretanto, um dos ambientes em que se nota mais claramente a manifestação desse fenômeno é o ambiente virtual, onde proliferam os sites, grupos de discussão, chats, fóruns e blogs dedicados a pessoas com interesses afins em determinadas áreas do conhecimento. No caso dessa pesquisa, me aterei aos sites voltados à formação e atualização de professores de inglês. Conforme Iahn, (2002), um portal é um site na Internet ou uma área dentro de um site que atrai o público baseado no seu conteúdo. [...] Numa escala inferior, existem muitos portais de nicho, também chamados de portais verticais. Estes têm como objetivo ser o ponto de partida para pessoas interessadas num assunto específico. De forma genérica, podemos definir os portais verticais como aqueles portais especializados em determinados segmentos. Conseqüentemente, os portais educacionais são portais especializados na área de educação. (Acesso pelo site www.aprendervirtual.com.br em 10/10/02). Devido à interatividade e à especificidade dos portais, pessoas com interesses profissionais e acadêmicos comuns podem se relacionar sem que alguém regule o tráfego de informações, que é horizontal. Todos são, potencialmente, emissores e receptores de informação, embora possa haver algum controle de fluxo - como a exigência de senhas - por parte dos mantenedores dos sites, sobretudo os comerciais. Essa horizontalidade da rede pode, por um lado, levar a um autodidatismo individualista, uma vez que a arte de aprender virtualmente prescinde de um suporte tutorial ou institucional. Conforme atesta Cebrián (1998, p. 56), "a liberdade, entendida como capacidade de opção, é também o grande chamariz das modernas redes. Diante da abundância de informações e ofertas de todo o tipo, diz-se que o usuário poderá escolher entre uma miríade de alternativas." Uma dessas alternativas é a navegação solitária, onde o contato interativo se dá apenas entre o indivíduo e a informação, e não entre indivíduos. Ainda segundo Cebrián (idem, p. 120), convertemo-nos em autodidatas, a começar pelos professores. A educação não pode ser senão um preparo para o estudo de nós mesmos, e a arte de aprender não é determinada pelos títulos acadêmicos, e, sim, pela solidez dos critérios que se aplicam na busca interminável de saberes que a vida constitui. Esse autodidatismo, crescente em nosso comportamento, ver-se-á aumentado pelas novas tecnologias que não deixam de projetar, entretanto, a suspeita de que existem consideráveis riscos se se fizer delas um uso indiscriminado e tenso. Por outro lado, e prefiro acreditar que até mais freqüentemente, os internautas, sobretudo os internautas professores, buscam a comunicação mais que a informação. Como observa Weston (apud KENWAY, 1998, p. 104), é impossível compreender grande coisa sobre a atração da Internet simplesmente analisando o seu conteúdo. A Internet diz respeito, principalmente, a pessoas encontrando sua voz e falando por si próprias de uma forma pública. Assim, [...] ter um conhecimento especializado num determinado assunto pode representar uma mercadoria que pode ser trocada por reconhecimento em determinado ciberespaço. A informação e a atividade comunicacional se tornam, portanto, fatores de agregação no que Maffesoli chama de "neotribalismo", gerando os sentimentos de proxemia e de pertença. A proxemia nos remete, essencialmente, ao papel de "nós" na rede que se estende por todo o planeta. "A racionalidade que se anuncia agora é principalmente proxêmica, intencional, se organiza em torno de um eixo que ao mesmo tempo liga as pessoas e as deixa livres. [...] O coeficiente de pertença não é absoluto, cada um pode participar de uma infinidade de grupos, investindo em cada um deles uma parte de si." (MAFFESOLI, 1998-a, p. 202). Maffesoli (ibidem, p. 194) afirma ainda que "a constituição dos microgrupos das tribos que pontuam a espacialidade se faz a partir do sentimento de pertença, em função de uma ética específica e no quadro de uma rede de comunicação. [...] O sentimento de pertença pode ser reafirmado pelo desenvolvimento tecnológico." No caso dos professores, e especificamente dos professores de língua inglesa, outra metáfora possível para caracterizar esse sentimento de pertença dentro de uma possível mescla de culturas é "a criação de mosaicos culturais cujos ladrilhos compõem um conjunto, porém guardam individualmente a sua identidade." (Cébrien, 1999, p. 131). Em cada site, um mosaico; em cada mosaico, uma soma de subjetividades concêntricas; em cada usuário, um ladrilho importante para a harmonia do resultado final; em cada webmaster um artista que torna tudo isso possível.
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