4. 4 - Sites docentes e seu impacto na ação pedagógica dos professores - Aspectos Principais

O crescimento pessoal e profissional que ocorre a partir do contato com outros colegas, proporcionado pela experiência de manter um site docente, é um dos aspectos que mais se destacam nas declarações dos professores ouvidos nessa pesquisa. Essa é uma constatação de certa forma surpreendente, pois o foco das trocas que ocorrem nos sites para professores está prioritariamente no usuário, ou seja, todo o trabalho envolvido na criação e manutenção de um site tem como objetivo atender às necessidades e promover o crescimento profissional do visitante dos sites.

E-mails, salas de bate-papo e fóruns virtuais são ferramentas que permitem aos internautas assumirem-se como produtores, e não apenas como receptores de conhecimento: num grau variável de interatividade, dependendo das limitações técnicas do site, contribuem com perguntas, textos, sugestões, respostas a dúvidas de colegas, e até planos de aula. Como gerenciadores de todo esse aporte de informações, os webmasters não podem deixar de se beneficiar.

Há professores que usam a tecnologia como instrumento de formação continuada e até mesmo no seu cotidiano pedagógico, sem, no entanto, promover mudanças substanciais no papel que desempenham junto aos alunos. por isso, a tecnologia não é, por si só, uma garantia de um ensino de fato inovador e centrado no aluno. Contudo, professores que buscam o crescimento profissional através da tecnologia e do contato com colegas caminham, impulsionados pelas trocas que essa experiência lhes proporciona, em direção a uma prática mais reflexiva.

Uma prática efetivamente reflexiva implica, segundo Zeichner, "o reconhecimento de que os professores são profissionais que devem desempenhar um papel ativo na formulação tanto dos propósitos e objetivos de seu trabalho, como dos meios para os atingir; isto é, o reconhecimento de que o ensino precisa voltar às mãos dos professores." Sob esse prisma, todos os webmasters entrevistados são, pelo menos potencialmente, professores reflexivos, pois compartilham a opinião de Zeichner (1993, p. 16) de que "a produção de conhecimentos sobre o que é um ensino de qualidade não é propriedade exclusiva das universidades e centros de investigação e de desenvolvimento, e que os professores também têm teorias que podem contribuir para uma base codificada de conhecimentos do ensino." Reconhecer-se como agente de formação é um dos significados de reflexão no entender desse autor, que, no entanto, considera a rejeição irrefletida dos conhecimentos produzidos pela universidade um erro tão grande quanto a rejeição dos conhecimentos dos professores. O que falta à universidade, acredita ele, é um maior reconhecimento em relação à riqueza da experiência que reside na prática docente.

Muitos dos webmasters entrevistados demonstram tomar para si a incumbência de diminuir essa distância entre o conhecimento acadêmico e os saberes exigidos na prática cotidiana dos professores de língua inglesa, especialmente através do compartilhamento de recursos que podem ser úteis a colegas menos experientes, ou que não dispõem de muito tempo. Apesar das boas intenções que via de regra subjazem a esse tipo de atitude, a entrevistada Barbara Dieu aponta uma conseqüência nociva que pode ocorrer na outra ponta, a dos usuários: a de que alguns professores se acostumam a utilizar o material sugerido sem refletir se este é útil ou não dentro do contexto em que ensinam. Isso é, segundo Zeichner (1993, p. 17), uma conduta contrária ao que supõe uma prática reflexiva.A prática reflexiva existe de fato quando os professores - sejam eles webmasters ou usuários - são capazes de agir com autonomia e assumem o papel de condutores do seu fazer pedagógico.

Indubitavelmente, a caminhada em direção a uma prática reflexiva exige que aprendamos a encontrar dentro de nós mesmos a solução para os problemas que o cotidiano do ensino nos impõe. Mas essa necessária introjeção não significa que devamos deixar de levar em consideração as sugestões, críticas, experiências e opiniões de outros professores.

A caminhada para uma prática reflexiva depende, portanto, de diferentes fatores:

* da capacidade de olhar criticamente para si e para a sua própria prática sem, no entanto, perder o contato com o outro;

* do desenvolvimento de um senso de autonomia profissional que reconhece a riqueza e a importância da experiência docente;

* do reconhecimento de que a produção de conhecimentos sobre o que é um ensino de qualidade não é propriedade exclusiva das universidades e centros de pesquisa acadêmica;

* da compreensão de que as soluções para os problemas cotidianos não podem ser tiradas inteiramente das experiências e ensinamentos de outros professores, ainda que mais experientes;

* da constituição de grupos ou comunidades de professores, nas quais uns sustentam o crescimento dos outros.

* a consciência de que o processo de aprender, e de aprender a ensinar, se prolonga por toda a vida.

Podemos concluir, portanto, que a experiência de construir e manter um site docente desempenha um papel acelerador no crescimento profissional e pedagógico dos webmasters entrevistados. Esse impacto é decorrente da própria rotina de gerenciamento dos sites, a qual inclui o contato ampliado com colegas de todo o mundo, a pesquisa, a prática solidária de compartilhar materiais e informações, a iniciativa de criar conhecimento paralelamente aos grandes centros de formação, a atualização constante e o desenvolvimento de uma postura mais crítica e reflexiva em relação à própria prática.

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