TEXTOS AUTÊNTICOS NO PROCESSO DE ENSINO E APRENDIZAGEM DE L.E.
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Texto de Célia Siqueira de Marrone, professora de Português Língua Estrangeira no Uruguay

Partindo da consideração que se faz na Didática de Línguas estrangeiras, de que não existe uma boa ou má atividade, senão uma boa ou má aplicação, vamos analisar as práticas e atividades que podemos usar ao trabalhar com materiais, ou melhor materiais didáticos, já que vamos usá-los na sala de aula. E quando falamos em materiais, pensamos em um conjunto de "objetos" que necessitam ou não aparelhos para o uso. Enfim, nos referimos ao material que pode ser útil para a atividade docente, que favoreça e facilite as atividades de ensino do professor e de aprendizagem por parte do aluno.

Em nossa área, temos:

* livros didáticos específicos;

* manuais "caseiros", elaborados pelos professores, objetivados para o ensino.

No entanto, existem outros "objetos" que, tradicionalmente, não foram concebidos para o ensino e aprendizagem, como o material informático e textos ou documentos autênticos. O maior mérito deste material é que permite introduzir a realidade do mundo estrangeiro na aula, porque constituindo o núcleo do trabalho do professor e condicionando as atividades de ensino e aprendizagem da LE. A partir de textos autênticos, o aluno pode interrogar, analisar, compreender e construir o conhecimento. São considerados complementários, porque se recorre a eles de forma seletiva e não continuada.

Como todo documento autêntico, tem uma dupla dimensão didática:

* de concepção e elaboração: tem estruturas lingüísticas, gramaticais, comunicativas e socio-culturais;

* de prática e aplicação: pode ser objeto e veículo de ensino e aprendizagem.

Os textos oferecem uma fonte importante de recurso para a aula de LE, por seu caráter disponível e manejável de forma imediata. Não só contribui para que o aluno tenha um conhecimento sobre a LE, como também propicia uma formação na realidade cultural do país estrangeiro.

São instrumentos para o ensino e aprendizagem; são objetos de ensino e aprendizagem e são estratégias para produções e criações próprias.

Em um planejamento, cujo "motor" é uma abordagem comunicativa, as unidades didáticas podem ser apresentadas a partir de textos autênticos, como amostras da língua-alvo.

A compreensão de um texto não passa pela gramática e pelo léxico. Através da leitura inspecional (horizontal), leitura analítica (vertical), com estratégias definidas, damos ao aluno as ferramentas para desenvolver o pensamento (uso) e a aquisição de conhecimentos (forma), porque estamos ensinando a LE como um todo, embora possa ser dividida em partes ( fonética, morfologia, sintaxe).

A sistematização é importante; deve haver uma hierarquia flexível das estruturas gramaticais, com um pouco de massificação na produção de determinadas estruturas, seja em nível fonológico ou morfossintático, através de exercícios orais e escritos, mas não deve ser o ponto de partida de uma unidade.

I. Seleção e escolha de textos:

Há uma palavra que resume este procedimento: motivação. E para que os alunos se sintam motivados, os textos devem ser:

* Funcionais: temas que sirvam como veículo do aspecto formal da LE e que ilustrem o uso da linguagem.

* Significativos: temas associados a outras disciplinas; à vida profissional.

* Relevantes: temas e conflitos do universo do aluno e da realidade atual.

* Interessantes: temas que sirvam para ativar os processos de análise (dividir) e de síntese (juntar) na produção oral e escrita.

* Desafiantes: temas que apelem à criatividade do aluno.

II. Abordagem do texto:

A abordagem do texto pode ser feita de duas maneiras:

* Em uma perspectiva informativa, utilizando o texto como fim em si mesmo, permitindo que o aluno aprecie e curta a leitura;

* Desde uma perspectiva instrumental, centrando a exploração do texto em estruturas lingüísticas.

III. Técnicas:

* Compreensão global com lacunas: não é necessário conhecer todas as palavras do texto para compreendê-lo.

* Idéias hipotéticas a partir do título: formulação de hipóteses, antecipar o que vai ler. " Tranparência: semelhança eventual de palavras com a língua materna.

* Inferência: entender a palavra através do contexto.

IV. Dinâmicas para trabalhar com textos:

* Objetivo: mobilizar os alunos para a leitura de textos.

* Procedimento: explicar a dinâmica antes da leitura, para que funcione como estímulo; não indicar os alunos que vão participar da dinâmica, para que todos estejam preparados.

1. Informações diferentes: cada aluno dá uma informação diferente do texto e não podem ser repetidas.

2. Repetição: o professor faz perguntas sobre o texto a um aluno, depois pede que um aluno repita as perguntas e as respostas.

3. Conversação com o texto: o professor pede a um aluno que complete, com suas idéias, a frase "O que o texto me diz..." e a outro aluno " O que eu digo ao texto..."

4. Comparação: (em dupla) o professor apresenta perguntas sobre o texto que serão respondidas por escrito, depois de comentadas em dupla; o professor solicita que as duplas que estão próximas troquem as respostas; indicar as duplas que vão ler as respostas dos colegas. Pode-se continuar a dinâmica, em níveis mais avançados, com a apresentação e discussão de argumentos

5. Perguntas e respostas: um aluno faz uma pergunta, outro responde e um terceiro repete a pergunta e resposta.

6. Atenção à resposta: o professor faz uma pergunta a um aluno, solicita a um segundo aluno que diga se concorda ou não com a resposta do colega e a um terceiro aluno que repita a resposta do primeiro colega e a opinião do segundo. A dinâmica pode ter continuidade com apreciações pessoais.

7. Correção: o professor faz alguns comentários errados sobre o texto e pede a um aluno que o corrija; os comentários podem ser feitos pelos alunos para que outros corrijam.

8. Localização no texto: o professor pede que um aluno fale, sem consultar o texto lido, uma idéia que tenha considerado significativa; pede a outro aluno que leia o trecho que melhor expresse a idéia do colega.

9. Escolha: o professor solicita a um aluno que escolha um trecho e leia em voz alta; pede a outro que, sem consultar o texto, explique o trecho lido.

10. Sorteio: o professor pede que os alunos escrevam, num pedaço de papel, uma informação que acharam importante e algum comentário; dobrar os papéis e cada aluno sorteia e diz se concorda ou não com o colega.

11. Explicação da pergunta: o professor pede aos alunos que pensem sem escrever uma pergunta sobre o texto escrevam a resposta numa papeleta; o professor recolhe as papeletas, um aluno sorteia e lê em voz alta, o aluno que a escreveu tem que dizer a pergunta.

12. Resposta à sua pergunta: pedir aos alunos que escrevam uma pergunta sobre o texto em uma papeleta; um aluno sorteia as papeletas e aquele que a escreveu tem que respondê-la.

13. Palavras iguais: o professor lê um trecho do texto; indica dois alunos para que expliquem e comentem o trecho lido; pede a um terceiro aluno que aponte as palavras iguais usadas pelos colegas.; pede a um quarto aluno que indique as palavras iguais ao trecho lido.

14. Parágrafo novo: pedir a todos os alunos que acrescentem um parágrafo ao texto; pedir que leiam e outros fazem comentários.

15. Complementação de idéias: pedir a um aluno que diga a idéia central do texto; a outro uma informação que seja complementar à idéia central e a um terceiro aluno se há relação entre as duas idéias.

Montevidéu, maio de 2005

BIBLIOGRAFIA CONSULTADA

Rangel, Mary, Dinâmicas de leituras para sala de aula, Vozes, 1990.

Rivers, Wilga Marie, A metodologia do ensino de línguas estrangeiras, Pioneira, 1975.

Sayeg-Siqueira, João Hilton, O texto, Selinunte, 1990.

Souza, Luiz Marques de, Compreensão e produção de textos, Vozes, 1995.

Widdowson, H.G., O ensino de línguas para a comunicação; Pontes, 1991.


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