A Iíngua como instrumento de controle e lavagem cerebral
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  Texto de Rafael Custódio de Lima (crcustodio@cpovo.net), traduzido do original em Japonês. Rafael é estudante de Teoria da Arte na Universidade de Saitama, no Japão.

Bem, meus amigos e minhas amigas, no meu discurso de hoje eu não pretendo falar a respeito do oxigênio do ar que nos rodeia. Mas, sim, acerca de algo que se assemelha ao ar que nos rodeia. A língua, suas palavras e seus usos. Por exemplo, certas pessoas usam a língua para escrever poemas. Já outras a usam para fazer galanteios. Hoje, eu pretendo falar sobre outro uso igualmente interessante da língua: o seu uso como um instrumento de manipulação, controle e lavagem cerebral.

Um dos principais meios que a sociedade tem para impor uma hierarquia é a língua. Seja para elitizar conhecimento, para a criação e estabelecimento de grupos baseados em xenofobia, ou simplesmente para dificultar e burocratizar as nossas vidas (qualquer dúvida, pergunte aos nossos amigos advogados). Lavagem cerebral e controle são conceitos diversos, mas se complementam, sendo requisitos mútuos num círculo vicioso infinito.

Lavagem cerebral é a manipulação das idéias do indivíduo através da repetição metódica de mentiras que se prestam ao serviço das ideologias dominantes. Tomemos, como exemplo, uma criança comum japonesa. O vocabulário cotidiano da língua japonesa está repleto de palavras como esforço, persistência, perseverança, paciência, aplicação, agüente. Essa criança comum escutará incontáveis vezes essas palavras durante sua vida, e quando chegar à idade adulta estará completamente adaptada ao sistema de trabalho japonês. No entanto, se vier a estudar outras línguas, será incapaz de compreender certas expressões, como La dolce vitta, Bon Vivant, La joie de vivre, Take it easy. E não só será incapaz de compreender essas expressões, como não terá a mínima vontade de fazê-lo.

Controle é o estabelecimento de uma hierarquia na qual uma pessoa ou um grupo (sistema) ordena os atos (vidas) das pessoas para seus próprios fins . Para que isso não aconteça, é necessário que se mostre quem está certo e quem está errado, numa competição onde ganha quem tem a maior capacidade de manipulação. Para os porta-vozes do sistema, que fazem uso do charme e de jogos de palavras para atingir os seus objetivos, não existe melhor ferramenta do que a língua. Imaginemos a seguinte história: certa pessoa chega a uma terra estrangeira, cuja língua e costumes não conhece. Em caso de conflito entre esse indivíduo e o status quo local, o último com certeza dirá: "Aqui, tu não somente não compreendes os nossos costumes, como também não consegues expressar tuas idéias na nossa língua. Ou seja, aqui não tens valor maior que um idiota".

Antes de terminar o meu discurso, eu gostaria de precavê-los a respeito de tudo o que foi dito aqui. Não aplaudam, por favor. Tampouco acreditem no que eu disse. Tudo pode ter sido um grande jogo de palavras, em suma, uma grande mentira. A mentira é tudo. Tendo dito isso, o presente discurso se termina.

 


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