La Petite, de Luis Fernando Veríssimo

Com o preço da carne do jeito que está, não se ouve mais aquela frase que geralmente vinha depois do "precisamos no ver":

- Vamos fazer um churrasquinho lá em casa!

Por "churrasquinho" se entendia alguma coisa informal, um pretexto para bermudas e papo, sem maiores gastos e compromissos. Um churrasquinho não envolvia planejamento prévio, convites antecipados ou muita frescura.

Claro, havia grandes churrascos. Daqueles em que o assador começava o dia exercitando os dedos e fazendo invocações a Santa Gertrudes, padroeira das carnes. Mas, normalmente, o churrasquinho era o protótipo da sem-cerimônia.

Não mais.

Hoje um convite para churrasquinho na casa de alguém provoca comentários.

- Eu não sabia que eles estavam tão bem.

Ou:

- Essa mania de ostentação.

Ou:

- Iiih. Aí tem Maluf.

E o convite não pode mais ser feito, assim, na rua, na base do "leva a patroa". Não demora, um convite para churrasco vem impresso. Com "R.S.V.P." no fim.

"O Sr. e a Sra. F. de Tal convidam para 'grillés en brochette' e saladas."

Ou, ainda mais imponente:

"Para 'un grillade sur braises avec du farine de manioc à la graisse'."

Uma relação dos pratos a serem servidor pode muito bem acompanhar o convite.

"Les grosses saucises Les coeurs de poule Les côtes de boeuf La picanhá Le cupin Le matambre farci La salade d'oignon et tomate Les pommes de terre sauce mayonnaise."

O que pode dar confusão é o item "aperitifs":

- Que diabo é isto aqui?

- Deixa ver. "La petite femme rustique."

- O que é?

- "La petite femme rustique". Bom, "femme" é mulher.

- "Petite femme."

- Mulherzinha

- "Rustique", rústica.

- Mulherzinha rústica?

- Caipirinha!

E na sobremesa:

"Configure de goyave avec du fromage."

Fonte:"Mãe de Freud", coleção L&PM Pocket, Editora L&PM - Porto Alegre, 1997, pág. 8