|
Jonathas de Paula
CHAGURI (FACINOR-PG) e Irene Rodrigues DANTAS (FACINOR-PG)
Referência: CHAGURI,
Jonathas de Paula; DANTAS, Irene Rodrigues. A linguagem não-verbal
no texto de Cora Coralina: da apropriação da Imagem pela palavra.
In: Trabalho apresentado ao programa de Pós-Graduação em Língua Portuguesa
e Literatura. Faculdade Intermunicipal do Noroeste do Paraná (Facinor),
Loanda, 2004, P. 1-6.
Ao nos basearmos
na poesia da grande poetisa Cora Coralina "Antiguidade", podemos notar
com clareza a junção da linguagem verbal e a linguagem não-verbal.
Cora Coralina retrata com sutileza e veracidade fatos de sua infância.
Através da poesia, podemos sentir que suas palavras são sinceras,
e que sua infância não foi fácil, pois a vida não dava tantas esperanças.
Esta marca de
sua poesia é vista no trecho logo abaixo:
Era só olhos
e boca e desejo
daquele bolo
inteiro.
Minha irmã
mais velha
governava.
Regrava.
Dava-me uma
fatia,
tão fina, tão
delgada...
E fatias iguais
às outras manas.
E que ninguém
pedisse mais !
E o bolo inteiro,
quase intangível,
guardava-se
bem guardado,
com cuidado,
num armário,
alto, fechado,
impossível.
Por meio do mesmo
foco, vemos que seus sofrimentos eram comuns, pois citava que a vida
das crianças não era muito harmoniosa.
A forma como a
poetiza usa a linguagem não-verbal é riquíssima, pois a poesia convida
o leitor a voltar àquele tempo, sentir o cheiro do bolo e ouvir
as conversas das visitas. Veja:
Era aquilo,
uma coisa de respeito.
Não pra ser
comido
assim, sem
mais nem menos.
Destinava-se
às visitas da noite,
certas ou imprevistas.
Detestadas
da meninada.
Segundo Maria
T. PEREIRA, "torna-se fundamental construirmos sentidos sem as palavras,
procurando aprender dos signos icônicos as mensagens por eles manifestadas".
(p. 257) Portanto, ao nos basearmos nessa teoria, conseguimos sentir
na poesia de Cora Coralina o protesto e as indignações sobre aquela
época, objetivando a construção de sentidos, ficando evidente como
a infância daquela época era difícil.
Por meio de palavras
que encantam e preenchem a imaginação de cada indivíduo, Cora Coralina
tece ainda considerações filosóficas sobre os seres humanos e a vida,
onde realiza um trabalho de alto nível forjado no sofrimento, na luta
e na experiência de vida, casadas a uma sensibilidade apurada.
Mesmo não sendo
escolarizada, conta casos da infância sofrida enquanto faz poesia,
narrando suas histórias do mundo e da vida, sendo essas uma de suas
marcas pessoais em seus poemas.
No trecho a seguir
podemos verificar muito bem este tipo de marca em sua poesia "Antiguidade2"
:
Criança, no
meu tempo de criança,
não valia mesmo
nada.
A gente grande
da casa
usava e abusava
de pretensos
direitos de educação.
Para finalizarmos,
vale ressaltar que as palavras levam-nos a formar imagens visuais.
Por outro lado, em relação à linguagem, cada indivíduo tem armazenado
em suas concepções de espírito seu próprio estoque de cor, com diferentes
ângulos, fazendo uso deles no momento em que se faz necessário. Esse
estoque determinará as escolhas que serão responsáveis pela sensibilidade
do que se lê, e de como se lê.
ANEXO: Cora Coralina
- Antiguidades
Quando eu era
menina
bem pequena,
em nossa casa,
certos dias
da semana
fazia-se um
bolo,
assado na panela
com um testo
de borralho em cima.
Era um bolo
econômico,
como tudo,
antigamente.
Pesado, grosso,
pastoso.
(Por sinal
que muito ruim.).
Eu era menina
em crescimento.
Gulosa,
abria os olhos
para aquele bolo
que me parecia
tão bom
e tão gostoso.
A gente mandona
lá de casa
cortava aquele
bolo
com importância.
Com atenção.
Seriamente.
Eu presente.
Com vontade
de comer o bolo todo.
Era só olhos
e boca e desejo
daquele bolo
inteiro.
Minha irmã
mais velha
governava.
Regrava.
Me dava uma
fatia,
tão fina, tão
delgada...
E fatias iguais
às outras manas.
E que ninguém
pedisse mais!
E o bolo inteiro,
quase intangível,
se guardava
bem guardado,
com cuidado,
num armário,
alto, fechado,
impossível.
Era aquilo,
uma coisa de respeito.
Não pra ser
comido assim,
sem mais nem
menos.
Destinava-se
às visitas da noite,
certas ou imprevistas.
Detestadas
da meninada.
Criança, no
meu tempo de criança,
não valia mesmo
nada.
A gente grande
da casa
usava e abusava
de pretensos direitos
de educação.
Por dá-cá-aquela-palha,
ralhos e beliscão.
Palmatória
e chineladas
não faltavam.
Quando não,
sentada no
canto de castigo
fazendo trancinhas,
amarrando abrolhos.
"Tomando propósito".
Expressão muito
coerente e pedagógica
Aquela gente
antiga,
passadiça,
era assim:
severa, ralhadeira.
Não poupava
as crianças.
Mas, as visitas...
- Valha-me Deus!...
As visitas...
Como eram queridas,
recebidas,
estimadas,
conceituadas,
agradadas!
Era gente superenjoada.
Solene, empertigada.
De velhas conversar
que davam sono.
Antiguidades...
Até os nomes,
que não se percam:
D. Aninha com
Seu Quinquim.
D. Milécia,
sempre às voltas com receitas de bolo,
assuntos de
licores e pudins.
D. Benedita
com sua filha Lili.
D. Benedita
- alta, magrinha.
Lili - baixota,
gordinha.
Puxava de uma
perna e fazia crochê.
E, diziam dela
línguas viperinas:
"- Lili é a
bengala de D. Benedita".
Mestre Quina,
D. Luisalves,
Saninha de
Bili, Sá Mônica.
Gente do Cônego
Padre Pio.
D. Joaquina
Amâncio...
Dessa então
me lembro bem.
Era amiga do
peito de minha bisavó.
Aparecia em
nossa casa
quando o relógio
dos frades
tinha já marcado
9 horas
e a corneta
do quartel, tocado silêncio.
E só se ia
quando o galo cantava.
O pessoal da
casa,
como era de
bom-tom,
se revezava
fazendo sala.
Rendidos de
sono, davam o fora.
No fim, só
ficava mesmo, firme,
minha bisavó.
D. Joaquina
era uma velha
grossa, rombuda,
aparatosa.
Esquisita.
Demorona.
Cega de um
olho.
Gostava de
flores e de vestido novo.
Tinha seu dinheiro
de contado.
Grossas contas
de ouro
no pescoço.
Anéis pelos
dedos.
Bichas nas
orelhas.
Pintava na
palha.
Cheirava rapé.
E era de Paracatu.
sobrinho que
a acompanhava,
enquanto a
tia conversava
contando "causos"
infindáveis,
dormia estirado
no banco da varanda.
Eu fazia força
de ficar acordada
esperando a
descida certa
do bolo
encerrado no
armário alto.
E quando este
aparecia,
vencida pelo
sono já dormia.
E sonhava com
o imenso armário
cheio de grandes
bolos
ao meu alcance.
De manhã cedo
quando acordava,
estremunhada,
com a boca
amarga,
- ai de mim
- via com tristeza,
sobre a mesa:
xícaras sujas
de café,
pontas queimadas
de cigarro.
O prato vazio,
onde esteve o bolo,
e um cheiro
enjoado de rapé.
|