Quem nasce de semente é planta, não gente - Capítulo 2

Embaixo das cobertas

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Não sei se em outras famílias há tantas regras como na minha, mas lá em casa, em dia de semana, criança não assiste à TV sem antes ter feito o dever de casa, nem faz o dever de casa sem antes ter jantado, nem janta sem antes ter tomado banho. Essa é uma estratégia da minha mãe para evitar que enrolemos muito na hora de entrar para baixo do chuveiro - o que nem sempre funciona - e ao mesmo tempo certificar-se de que não passamos tempo demais às voltas com o que ela chama de "máquina de fazer gente burra".

A única brecha possível nesse plano maligno acontece nas finais de campeonato ou nos jogos do Brasil, mesmo quando amistosos. É que eu sou tão fanático, mas tão fanático por futebol, que não deixarem eu assistir a um jogo decisivo pode desencadear um ataque de asma. Juro! Já aconteceu diversas vezes, então ultimamente a minha mãe tem preferido não arriscar.

Justamente no dia da conversa com o Tio Juca, o Brasil jogava contra a Argentina na fase eliminatória para a Copa. Nem perguntei para a minha mãe se podia: depois do banho e já de pijama, me sentei com um prato de massa com galinha na frente da TV. Quem implica com isso é o meu pai, mas em dia de jogo todas as regras são flexíveis, e ele também sentou no sofá com um prato no colo. O jogo foi sofrido, mas o Brasil venceu: 2 a 1, de virada.

Já era quase onze da noite quando me lembrei dos exercícios no livro de Matemática e da "pesquisa" para o Tio Juca. Era coisa demais pra fazer na manhã seguinte, a não ser que eu faltasse à aula de natação. E a probabilidade de a minha mãe deixar eu faltar à aula de natação sempre foi praticamente a mesma do Maradona voltar a jogar no Boca Juniors: null, como diz a minha professora de alemão, carregando no "l".

Foi preciso arquitetar um plano, por dois motivos: bilhetes na agenda estavam fora de questão, e a hora de dormir, mais uma imposição da minha mãe, era onze e quinze, no máximo. E quando a minha mãe diz "no máximo", é isso mesmo que ela quer dizer: às onze e quinze em ponto ela simplesmente apaga todas as luzes, nos dá um beijo de boa noite e espera absoluto silêncio. Então exatamente a esta hora lá estava eu, na cama e no escuro, esperando o meu beijo de boa noite. Com um caderno, uma caneta, um dicionário e uma lanterna embaixo das cobertas.

O perfume do creme que a minha mãe usa à noite entrou antes dela no quarto. Logo senti ela sentar na beirada do colchão, se inclinar e me dar um beijo na bochecha.

-- Como foi o seu dia? -- ela perguntou baixinho, porque provavelmente o meu pai e as minhas irmãs já estavam dormindo.

-- Bem -- eu preferi não entrar em detalhes.

-- E o livro da biblioteca, devolveu?

-- Devolvi.

Nossas conversas à noite são sempre assim, meio econômicas. Eu sei que ela precisa levantar muito cedo no outro dia, e ela acha que eu preciso de dez horas de sono para crescer forte e saudável.

-- Boa noite, então -- e ao se aproximar para me dar o segundo beijo, sua mão sentiu alguma coisa dura embaixo do cobertor.

-- O que é isso, Rafa?

-- Não sei, acho que deixei alguma coisa na cama quando esvaziei a mochila -- e ainda no escuro, puxei o dicionário, coloquei no chão e disse: -- pronto, era só um livro.

Mas mães são criaturas muito desconfiadas. E espertas.

-- E além do livro, tem mais alguma coisa? Pensei em mentir, mas logo vi que não adiantava: era só ela acender a luz que o meu segredo seria descoberto. Então admiti:

-- É, tem mais umas coisinhas.

-- Umas coisinhas?

-- Tudo da escola: caderno, lápis...

-- E eu posso saber por que esse material está embaixo das suas cobertas?

-- Porque eu preciso fazer uma pesquisa, e não vou conseguir fazer amanhã. A não ser que você deixe eu faltar à aula de natação.

- Acho que não é o caso de eu deixar você faltar à natação. A solução para o seu problema seria você ter deixado de ver o jogo. Eu vivo te ensinando, Rafa, que as pessoas precisam ter prioridades. Nessa casa, as prioridades para as crianças são os estudos e o esporte.

-- Jogo de futebol é esporte.

-- Não do tipo de que você precisa, Rafael!

Sempre acontece isso: quando a minha mãe se irrita comigo, eu deixo de ser Rafa e viro Rafael. Pensei que ela fosse comentar que eu estou acima do peso, que só como porcaria e que assim eu vou virar um tampinha gorducho como o nosso vizinho. Mas acho que ela já estava muito cansada para começar essa conversa outra vez. Então ela mudou de assunto e perguntou:

-- Que pesquisa é essa que você tem que fazer para amanhã?

-- Eu tenho que procurar umas palavras no dicionário.

-- Que palavras?

-- Ah, nem me lembro.

-- Para a aula de Português?

Mãe é que nem aqueles cachorros que caçam coelhos: quando farejam alguma coisa, não há quem as faça desistir. Podia ser só curiosidade, mas eu desconfiei que ela estava farejando alguma coisa. Então admiti:

-- Não, foi o Tio Juca que pediu.

-- O Tio Juca andou substituindo a sua professora?

-- Não exatamente.

-- Rafael, você quer me contar essa história direito, ou eu vou ter que perguntar para o Tio Juca?

-- Tá bem, eu te conto. Mas promete que não vai contar para o papai?

-- O que você andou aprontando?

-- Promete?

-- Só se não for nada grave.

-- Acho que não é grave. Eu só chamei o João Pedro de filho da puta. E depois de veado.

Minha mãe ficou quieta por um minuto, de certo tentando decidir se isso era grave ou não era. Então ela falou, com voz decepcionada:

-- Onde é que você aprendeu a falar desse jeito?

-- Ah, mãe, todo mundo diz palavrão na escola. -- Pensei em acrescentar: e nos jogos de futebol também, mas acabei omitindo esse detalhe, porque ela podia me proibir de ir ao estádio.

-- Só que dessa vez fui eu que o Tio Juca pegou. Ele me chamou na sala dele, me disse que eu não sabia o significado das palavras que eu estava usando, e me pediu para perguntar para vocês ou procurar no dicionário. Se eu fizer a pesquisa, ele não manda bilhete na agenda.

-- Teria sido mais fácil perguntar do que esconder tudo isso embaixo das cobertas.

-- Aí não teria adiantado eu escapar do bilhete!

-- E com a minha voz mais melosa eu praticamente implorei:

-- Mãe, se o papai ficar sabendo, eu não ganho o skate.

-- Está bem, eu não conto para ele. Mas nada de ficar fazendo pesquisa embaixo das cobertas. Você deveria estar dormindo há muito tempo. E eu também!

Tirei os outros materiais e a lanterna debaixo do cobertor, os coloquei no chão e me ajeitei de novo na cama. Quando já podia ouvir os passos de minha mãe na porta, perguntei:

-- Amanhã você me explica o que quer dizer puta? Às vezes eu não entendo as explicações no dicionário.

Achei que ela estava ainda braba comigo, porque demorou vários segundos para responder.

-- Explico -- ela disse finalmente -- depois da sua aula de natação.

Mas ela não me pareceu nada empolgada com a tarefa.