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Não sei se em outras famílias
há tantas regras como na minha, mas lá em casa, em dia de semana,
criança não assiste à TV sem antes ter feito o dever de casa, nem
faz o dever de casa sem antes ter jantado, nem janta sem antes ter
tomado banho. Essa é uma estratégia da minha mãe para evitar que enrolemos
muito na hora de entrar para baixo do chuveiro - o que nem sempre
funciona - e ao mesmo tempo certificar-se de que não passamos tempo
demais às voltas com o que ela chama de "máquina de fazer gente burra".
A única brecha possível
nesse plano maligno acontece nas finais de campeonato ou nos jogos
do Brasil, mesmo quando amistosos. É que eu sou tão fanático, mas
tão fanático por futebol, que não deixarem eu assistir a um
jogo decisivo pode desencadear um ataque de asma. Juro! Já aconteceu
diversas vezes, então ultimamente a minha mãe tem preferido não arriscar.
Justamente no dia da conversa
com o Tio Juca, o Brasil jogava contra a Argentina na fase eliminatória
para a Copa. Nem perguntei para a minha mãe se podia: depois do banho
e já de pijama, me sentei com um prato de massa com galinha na frente
da TV. Quem implica com isso é o meu pai, mas em dia de jogo todas
as regras são flexíveis, e ele também sentou no sofá com um prato
no colo. O jogo foi sofrido, mas o Brasil venceu: 2 a 1, de virada.
Já era quase onze da noite
quando me lembrei dos exercícios no livro de Matemática e da "pesquisa"
para o Tio Juca. Era coisa demais pra fazer na manhã seguinte, a não
ser que eu faltasse à aula de natação. E a probabilidade de a minha
mãe deixar eu faltar à aula de natação sempre foi praticamente a mesma
do Maradona voltar a jogar no Boca Juniors: null, como diz
a minha professora de alemão, carregando no "l".
Foi preciso arquitetar
um plano, por dois motivos: bilhetes na agenda estavam fora de questão,
e a hora de dormir, mais uma imposição da minha mãe, era onze e quinze,
no máximo. E quando a minha mãe diz "no máximo", é isso mesmo que
ela quer dizer: às onze e quinze em ponto ela simplesmente apaga todas
as luzes, nos dá um beijo de boa noite e espera absoluto silêncio.
Então exatamente a esta hora lá estava eu, na cama e no escuro, esperando
o meu beijo de boa noite. Com um caderno, uma caneta, um dicionário
e uma lanterna embaixo das cobertas.
O perfume do creme que
a minha mãe usa à noite entrou antes dela no quarto. Logo senti ela
sentar na beirada do colchão, se inclinar e me dar um beijo na bochecha.
-- Como foi o seu dia?
-- ela perguntou baixinho, porque provavelmente o meu pai e as minhas
irmãs já estavam dormindo.
-- Bem -- eu preferi não
entrar em detalhes.
-- E o livro da biblioteca,
devolveu?
-- Devolvi.
Nossas conversas à noite
são sempre assim, meio econômicas. Eu sei que ela precisa levantar
muito cedo no outro dia, e ela acha que eu preciso de dez horas de
sono para crescer forte e saudável.
-- Boa noite, então --
e ao se aproximar para me dar o segundo beijo, sua mão sentiu alguma
coisa dura embaixo do cobertor.
-- O que é isso, Rafa?
-- Não sei, acho que deixei
alguma coisa na cama quando esvaziei a mochila -- e ainda no escuro,
puxei o dicionário, coloquei no chão e disse: -- pronto, era só um
livro.
Mas mães são criaturas
muito desconfiadas. E espertas.
-- E além do livro, tem
mais alguma coisa? Pensei em mentir, mas logo vi que não adiantava:
era só ela acender a luz que o meu segredo seria descoberto. Então
admiti:
-- É, tem mais umas coisinhas.
-- Umas coisinhas?
-- Tudo da escola: caderno,
lápis...
-- E eu posso saber por
que esse material está embaixo das suas cobertas?
-- Porque eu preciso fazer
uma pesquisa, e não vou conseguir fazer amanhã. A não ser que você
deixe eu faltar à aula de natação.
- Acho que não é
o caso de eu deixar você faltar à natação. A solução para o seu problema
seria você ter deixado de ver o jogo. Eu vivo te ensinando, Rafa,
que as pessoas precisam ter prioridades. Nessa casa, as prioridades
para as crianças são os estudos e o esporte.
-- Jogo de futebol é esporte.
-- Não do tipo de que você
precisa, Rafael!
Sempre acontece isso: quando
a minha mãe se irrita comigo, eu deixo de ser Rafa e viro Rafael.
Pensei que ela fosse comentar que eu estou acima do peso, que só como
porcaria e que assim eu vou virar um tampinha gorducho como o nosso
vizinho. Mas acho que ela já estava muito cansada para começar essa
conversa outra vez. Então ela mudou de assunto e perguntou:
-- Que pesquisa é essa
que você tem que fazer para amanhã?
-- Eu tenho que procurar
umas palavras no dicionário.
-- Que palavras?
-- Ah, nem me lembro.
-- Para a aula de Português?
Mãe é que nem aqueles cachorros
que caçam coelhos: quando farejam alguma coisa, não há quem as faça
desistir. Podia ser só curiosidade, mas eu desconfiei que ela estava
farejando alguma coisa. Então admiti:
-- Não, foi o Tio Juca
que pediu.
-- O Tio Juca andou substituindo
a sua professora?
-- Não exatamente.
-- Rafael, você quer me
contar essa história direito, ou eu vou ter que perguntar para o Tio
Juca?
-- Tá bem, eu te conto.
Mas promete que não vai contar para o papai?
-- O que você andou aprontando?
-- Promete?
-- Só se não for nada grave.
-- Acho que não é grave.
Eu só chamei o João Pedro de filho da puta. E depois de veado.
Minha mãe ficou quieta
por um minuto, de certo tentando decidir se isso era grave ou não
era. Então ela falou, com voz decepcionada:
-- Onde é que você aprendeu
a falar desse jeito?
-- Ah, mãe, todo mundo
diz palavrão na escola. -- Pensei em acrescentar: e nos jogos de futebol
também, mas acabei omitindo esse detalhe, porque ela podia me proibir
de ir ao estádio.
-- Só que dessa vez fui
eu que o Tio Juca pegou. Ele me chamou na sala dele, me disse que
eu não sabia o significado das palavras que eu estava usando, e me
pediu para perguntar para vocês ou procurar no dicionário. Se eu fizer
a pesquisa, ele não manda bilhete na agenda.
-- Teria sido mais fácil
perguntar do que esconder tudo isso embaixo das cobertas.
-- Aí não teria adiantado
eu escapar do bilhete!
-- E com a minha voz mais
melosa eu praticamente implorei:
-- Mãe, se o papai ficar
sabendo, eu não ganho o skate.
-- Está bem, eu não conto
para ele. Mas nada de ficar fazendo pesquisa embaixo das cobertas.
Você deveria estar dormindo há muito tempo. E eu também!
Tirei os outros materiais
e a lanterna debaixo do cobertor, os coloquei no chão e me ajeitei
de novo na cama. Quando já podia ouvir os passos de minha mãe na porta,
perguntei:
-- Amanhã você me explica
o que quer dizer puta? Às vezes eu não entendo as explicações no dicionário.
Achei que ela estava ainda
braba comigo, porque demorou vários segundos para responder.
-- Explico -- ela disse
finalmente -- depois da sua aula de natação.
Mas ela não me pareceu
nada empolgada com a tarefa.
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