Voltar É tudo improviso: técnicas de teatro para as aulas de línguas estrangeiras

Texto de autoria de Cinara Diniz* (jornalista, especialista em Comunicação, Educação e Tecnologia e graduanda do curso de Letras da UFMG. Leciona inglês para adultos e adolescentes desde 2000). Para mais informações, contate a autora: cibiell@gmail.com

Era 2006 e um amigo de faculdade havia me convidado para assistir à sua apresentação de formatura do Centro de Formação Artística do Palácio das Artes, em Belo Horizonte. Com o intuito de prestigiá-lo, fui, sem saber ao certo do que se tratava a peça. Mal sabia eu que minha vida e filosofia estavam prestes a serem modificadas profundamente.

O espetáculo em questão era o Match de Improvisação, formato mundialmente famoso. Nele há duas equipes de atores/jogadores que improvisam cenas sugeridas pelo público no calor do momento. Com direito a juízes (e as típicas vaias que vêm com eles), placar e mestre de cerimônias. Aquilo era diversão pura: os atores se arriscando em cenas nonsense, rindo com os próprios erros e fazendo uso deles e ficando felizes mesmo quando não ganhavam. Virei fã de carteirinha e passei a frequentar quase todas as noites, já que uma nunca é igual à outra. O que isso tem a ver com o ensino de língua estrangeira? Aguarde o próximo capítulo...

Fast forward para 2010...

Com pouco tempo para me dedicar a projetos paralelos e prazeirosos, decidi fazer uma oficina de improvisação teatral em Diamantina, pelo Festival de Inverno da Universidade Federal de Minas Gerais. O canadense Frank Totino foi o responsável por 10 dias de aprendizado inesquecível, com direito a gargalhadas descontroladas, lágrimas emocionadas e cenas memoráveis. Minha insegurança em compartilhar o palco com atores experientes, inclusive vindos do mesmo Match de que eu era fã, logo deu lugar a um sentimento de alegria, generosidade, leveza e ruptura da ansiedade. Lá, aprendi os princípios básicos da improvisação, também chamada de impro.

Aceitação da proposta do outro (sem bloquear ideias!); escuta coletiva e atenção ao que o outro diz; proporcionar prazer àquele com quem jogamos/contracenamos; estar presente, livre de ansiedade, autocobrança ou desejo da opinião alheia; busca pelo espontâneo em lugar do correto. Percebi que tudo aquilo que fazíamos como treinamento para atores era, na verdade, uma profunda forma de pensar a vida. Aos poucos, fui absorvendo tais conceitos e me jogando em leituras sobre a impro. Ler "Impro: Improvisation and the theater", escrito pelo mestre de Totino, Keith Johnstone, foi revelador e tocante.

Resolvi que era hora de sair do campo das ideias e aplicar tudo aquilo que havia lido e vivenciado. Aos poucos, fui adotando determinados jogos com meus alunos particulares, mostrando vídeos de programas de TV e apresentações teatrais que exploram/usam a impro. Busquei também me apropriar da maneira de ensinar tão sem julgamento, humana e acolhedora de Johnstone e Totino. As reações dos estudantes quanto às propostas de jogos eram as mais variadas possíveis: descrença da própria capacidade de conseguir jogar, desinteresse inicial por coisas ditas "artísticas" e até a entrega total ao desconhecido.

Independente da primeira impressão, era fato que TODOS os estudantes riam, e muito, durante os exercícios. Alguns colegas de profissão poderiam criticar e dizer que o conteúdo poderia se tornar superficial e a retenção ser mínima. O que constatei na minha prática foi exatamente o contrário: devido à presença e foco ao fazer os jogos, os alunos conseguiam se autocorrigir mais rapidamente, tomando consciência daquilo que estava em jogo, rindo dos próprios erros e não se culpando por eles. Além disso, desenvolviam maior fluência oral ao colocar a timidez e tensão de lado e pareciam mais conectados a seus pares e menos preocupados com o olhar avaliativo do professor. Ao invés de reproduzir diálogos pré-existentes, os estudantes se tornaram sujeitos produtores de conteúdo que nem eles sabiam que possuíam dentro de si, tornando-os mais abertos e flexíveis às situações inesperadas.

Sem dúvida, minha prática como professora também mudou. Tornei-me uma profissional menos preocupada com planos de aula absolutamente sistematizados e passei a focar naquilo que interessava: o aluno. Qual era seu estado de espírito? O que ele quer aprender? Como ele aprende? Quais são seus medos e travas? A educação "tradicional" molda os estudantes a enxergar a figura do professor como autoridade máxima e inalcançável e nós aceitamos este status e lá ficamos. Eu queria "descer" deste lugar, para poder ficar mais próxima dos meus students, para vê-los melhor, construir juntos baseado na demanda proveniente deles. Isto ainda é um exercício constante que faço, em sala de aula e fora dela. Se é o correto ou se gera grandes resultados quantitativos, eu não posso afirmar. Sei que me sinto mais educadora do que nunca, pois agora eu consigo me conectar com meus alunos, verdadeiramente enxergando-os. A prática educativa ficou mais prazerosa e isto certamente reflete neles.

Abaixo, compartilho com vocês alguns dos exercícios que foram usados em sala de aula. Tomo a liberdade também de comentar quais eram meus objetivos iniciais com eles e quais foram as surpresas que surgiram em seu uso. Alguns têm ótimo potencial linguístico, outros são muito bons como warm-ups e colocam os alunos em um estado de bem-estar onde o risco e o erro são bem-vindos. Vale frisar que tais jogos são inúteis se a postura do professor é austera e punitiva - seu alvo é exatamente o contrário.

Questions only: um jogo muito utilizado por improvisadores: o programa de TV norte-americano Whose Line is It Anyway? e a Cia. Barbixas de Humor constantemente o utilizam em suas apresentações. Um diálogo deve ser estabelecido, mas as duas partes só podem utilizar de perguntas para se comunicar. Quando há mais pessoas em classe e seu perfil é mais extrovertido, pode-se substituir a pessoa que erra por uma próxima, sempre dando chance para todos participarem.

Por exemplo: Paulo: Where did you go last night? Sandra: Why do you want to know? Paulo: Aren't you my daughter? Sandra: Can't I be independent and have my own life? (Etc…)

É bastante divertido e muito bom para a revisão gramatical de perguntas, especialmente na língua inglesa, considerando que várias vezes os alunos suprimem o uso de Auxiliary verbs. Muitos erros eram cometidos mas o objetivo não é desenvolver precisão, é fazer com que eles consigam pensar rápido e gozar das situações inesperadas que podem advir de um diálogo como este. Cabe ao professor tomar cuidado para não transformar este jogo em competição e prestar atenção se o aluno que joga está aberto às propostas do outro ou simplesmente inserindo perguntas previamente criadas que não têm relação com o contexto. Por último, claro, mapear as dificuldades gramaticais que a turma possui.

One word at a time: Como o próprio nome já diz, um grupo de alunos contará uma estória onde cada um deverá falar apenas uma palavra por vez. Pode ser usado com a turma toda, duplas, trios... Uma variação é fazer um grupo encenar a estória enquanto o outro a cria.

Exemplo: Paulo: One Sandra: night João: I Andréa: decided Paulo: to Sandra: draw. João: So Andréa: I Paulo: bought Sandra: red João: paint. (Etc)

Este é um exercício excelente para desenvolver o que chamamos de escuta coletiva. De nada adianta dizer uma palavra genial se ela não se conecta com aquelas que meus colegas disseram antes de mim. Muito bom para revisão de vocabulário, caso o professor tenha dado algum tema específico ou mesmo conectores (So, however, then...) além do desenvolvimento de estrutura narrativa. É importante que a espontaneidade seja abraçada e não evitada pois muitas vezes a estória caminha para lugares inesperados ou curiosos.

Talk and touch: uma dupla faz uma cena mas ambos só podem falar se se tocarem. Pode ser uma releitura de um texto, áudio ou filme ou sobre um tema específico que o professor esteja trabalhando.

Este jogo reduz a ansiedade e a necessidade da preencher os vazios com a fala, fazendo com que os alunos se percebam mais "em cena". Como há menos produção oral, é um bom exercício para os mais tímidos, que temem se expressar ou que pensam muito antes de falar. É delicioso de fazer e de ver. Mais uma vez, o professor deve estar atento à performance. Se um aluno não se voluntaria para fazê-lo ou se sente desconfortável com a exposição, é melhor deixa-lo na "plateia". Na verdade, todos os jogos aqui citados devem contar com a sensibilidade do educador para evitar frustração e tensão.

Este relato é na verdade um relato com leves pitadas de sugestões pedagógicas. Tenho para mim que mais do que fazer rir, a improvisação teatral, do ponto de vista de Keith Johnstone, serve para sermos mais nós mesmos. Se queremos que nossos alunos realmente façam sentido daquilo que aprendem, acredito que devemos ir além do território linguístico e cognitivo e passemos ao reino das relações humanas. Se não há consenso sobre "o professor ser, de certa forma, um ator", deixe que os alunos o sejam. Entregue o palco para eles e surpreenda-se com aquilo que eles têm para dar em troca. A partir daí, improvise. No melhor sentido da palavra.

 


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