Estratégias para uma avaliação construtiva
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Vivian Magalhães

A avaliação é uma ferramenta que os professores muitas vezes subestimam. Não o tipo de avaliação que apenas detecta falhas na aprendizagem, mas uma gama de procedimentos que respeitam o simples fato de que os alunos são indivíduos que aprendem diferentemente, num ritmo nem sempre igual. A avaliação precisa ser parte de todo o processo de ensino, em vez de simplesmente aparecer no final de uma lição ou capítulo como forma de checar se nossos objetivos foram atingidos. Já que o processo de aprendizagem é contínuo (nós nunca paramos de aprender, não é?), então a avaliação também precisa ser.
O primeiro passo que nós, professores, temos de dar para fazer da avaliação um processo contínuo é entender que testar e avaliar não são verbos sinônimos. O teste é, de fato, uma técnica de avaliação, só que não é a única. Às vezes, as respostas que nós procuramos nos testes estão bem ali, na nossa própria sala de aula, bem debaixo dos nossos narizes. Então, a observação precisa ter um papel de destaque na avaliação. Do mesmo modo, os exercícios e atividades desempenhadas em aula não podem ser postos de lado como mera prática para aquilo que "realmente importa", ou seja, Sua Alteza Real a Prova. Eles poderiam ter grande utilidade num portofólio onde o desenvolvimento lingüístico de cada aluno pudesse ser acompanhado de perto. Enquanto os testes são binários e indicam que (sim) os alunos corresponderam às nossas expectativas ou (não) eles não entenderam o que tentamos explicar, são as atividades em aula mostram exatamente em que estágio de aprendizagem eles estão, numa gama muito maior de possibilidades.
Abaixo, listamos algumas estratégias de avaliação que incluem, mas não se limitam a testes escritos, portofólios e observação dos alunos. São técnicas que não só foram testadas em sala de aula, como de fato funcionam muito bem!

Estratégias de avaliação

Observação:

* Anotações feitas pelo professor durante determinadas atividades e anotadas em cartões, folha ou caderno (específicos para este fim);

* Relatório de aula: um aluno anota o que acontece, depois relata suas anotações;

* Uma tabela contendo os nomes de todos os presentes em que é possível anotar a participação de cada aluno nas discussões ajuda a dividir o tempo mais eqüitativamente;

* Câmera na sala de aula: os alunos e o professor são filmados para que a observação possa ser feita posteriormente, com maior riqueza de detalhes.

Re-criação

* Transformar um texto num diálogo, música ou carta;

* Reescrever uma história conhecida mudando o final, personagens ou qualquer outro elemento que a caracterize;

* Representar visualmente uma história ou uma de suas cenas (quem sabe usando o computador!)

* Dramatização: recontar uma história ou explicar um conceito através de uma peça ou "sketch" de teatro.

Simulação:

* Testes escritos preparados pelo professor;

* Testes escritos preparados com questões formuladas por alunos;

* Testes que verificam outras habilidades (como conversação e compreensão)

Portofólios:

* portofolios organizados pelo professor;

*portofólios organizados pelo aluno.

Mas digamos que os tais testes (sob os nomes de prova, provão, exames, etc.) são exigidos na escola onde você trabalha, ou são um tipo de "dispositivo de segurança" que você prefere ter à mão contra bagunça, desinteresse ou pais contestadores. Ainda assim, dá para melhorar muito a maneira de avaliar sem fazer mudanças drásticas. Como foi dito antes, a avaliação só vai ser justa e útil se for parte do processo de aprendizagem, em vez de um mero instrumento para medi-la. Se quatro habilidades foram ensinadas, não há por que fazer apenas testes escritos. Promova atividades alternativas que avaliem também o desempenho oral, a leitura e a compreensão! Se você tentou, durante suas aulas, tornar o aprendizado agradável, interessante e lúdico, não há lógica em preparar testes que são chatos ou exaustivos. Se você conseguiu desenvolver uma atmosfera de amizade e cooperação, não há motivo para intimidar os alunos com testes demasiadamente difíceis ou aplicar técnicas militares para evitar a cola. Em outras palavras, nossas provas tem de fazer sentido. E não custa se perguntar, antes de mandar fazer cópias:

  • Os conteúdos avaliados são de fato relevantes?
  • Houve a preocupação em criar questões que permitissem ao aluno pensar e criar , ou se está exigindo dele apenas processos mentais mais básicos, como a memorização?
  • Os conteúdos foram de fato aplicados e praticados em aula, ou se mantiveram a nível meramente teórico?
  • Houve o cuidado, durante a elaboração, de contemplar diversos tipos de inteligência e estilos de aprendizagem, dando a todos os alunos uma chance justa de explorarem as suas potencialidades? Se não, que tipos de questões poderiam minimizar esta lacuna?
  • O principal propósito deste instrumento de avaliação é constatar falhas que possam ter ocorrido no processo de aquisição da língua estrangeira ou detectá-las para poder fazer alguma coisa a respeito? E o mais importante:
Há objetivos claros e relevantes para cada uma das questões formuladas?

Sim, porque a não ser que se trabalhe em cima de objetivos claros que nos permitam detectar onde os problemas estão, a nota vai se tornar um mero rótulo. E sobre rótulos, Alan Trussel-Cullen, autor de "Assessment in the lerner-centered classroom" tem a dizer o seguinte:

"Rotular, como estratégia de avaliação, só funciona realmente quando estamos avaliando fósseis -porque fósseis não mudam. Alunos mudam. Bons alunos se transformam todo o tempo. Bons professores ajudam a fazer com que estas transformações aconteçam. O rótulo apenas fixa alunos um pouco mais lentos num patamar desfavorável de ensino."

Talvez o que Trussel-Cullen esteja tentando dizer é que é inócuo --e às vezes até prejudicial-- dar ao aluno um "C", um "7" ou um "não satisfatório", a não ser que se saiba onde estão os pontos fracos e, a partir daí, se possa elaborar um plano de ação que irá dar ao aluno uma segunda (terceira, quarta ... ) chance de atingir um nível semelhante de entendimento dos demais. Isso não é sempre fácil, mas algumas das possibilidades incluem
  • Atividades de estudo dirigido, onde o professor providenciará material suplementar nas áreas em que o aluno apresentou dificuldade;
  • Monitoria: alunos que atingiram plenamente os objetivos podem (e devem) ajudar colegas que estejam enfrentando dificuldades.
  • Usar o laboratório de informática: os alunos deverão ser encorajados a usar o computador como ferramenta para desenvolver habilidades lingüísticas sempre que houver a disponibilidade deste equipamento (na escola ou em casa). Além de softwares específicos, como o Smart Start, disponível em várias línguas, alguns sites na Internet ( como o www.eslcafe.com, para estudantes de inglês) podem ajudar os alunos a aprender. E as dúvidas podem sempre ser resolvidas por e-mail pelo professor!
  • Uma nova chance (reestudo): Depois que os alunos tiverem tido uma chance de rever objetivos apenas parcialmente ou não atingidos, deveria haver uma oportunidade para que eles pudessem mostrar ao professor (e a si mesmos) o quanto eles progrediram. Embora haja controvérsia sobre esse assunto, é nossa opinião que um novo teste deve ser considerado.
Normalmente, os professores revisam o que "a maioria" dos alunos errou. Isso é chato e improdutivo porque vários alunos acabam revisando aquilo que já entenderam bem. Sempre que possível, é aconselhável atender os alunos individualmente enquanto os outros estão engajados em uma atividade alternativa. Para aqueles que realmente não dispõem de muito tempo, uma possibilidade é dar aos alunos as ferramentas para que possam fazer o trabalho extra em casa.
E já que "trabalho extra" foi mencionado, você talvez esteja pensando: "mas e isso não significa mais e mais trabalho extra para o professor?" Não necessariamente, se os professores de um mesmo nível ou série trabalharem cooperativamente: todos podem contribuir para um banco de atividades a serem utilizados no estudo dirigido, por exemplo. Esse banco cobriria diferentes tópicos e níveis de proficiência, e cópias poderiam ser feitas desse material quando fosse necessário. Cada atividade deve ter uma explicação detalhada do tópico (na língua materna, se necessário), seguida de atividades em que o aluno possa aplicar os novos conhecimentos.
Não importa quais sejam as dificuldades, soluções sempre podem ser encontradas. Para um bom professor, nada é comparável ao prazer de constatar que, com a sua ajuda, um aluno foi capaz de superar suas dificuldades e ir adiante. Qualquer esforço para atingir este Éden terá valido a pena. Já que não podemos contar muito com excelentes salários, nós temos que viver de resultados.

E para encerrar...
Talvez nem todas as sugestões sobre como tornar a avaliação um processo mais eficiente possam ser postos em prática. Mas é sempre bom lembrar, quando avaliamos nossos alunos, para onde queremos ir e do que devemos nos distanciar. E, a partir daí, tentar fazer o melhor possível. Em resumo, o que devemos buscar é

Mais gerenciamento Menos controle
Mais "facilitação" Menos instrução
Mais "mostrar" Menos "dizer"
Mais modelos Menos instrução
Mais responsabilidade Menos cobrança
Mais colaboração Menos hierarquia
Mais objetivo Menos tarefas "soltas"
Mais maneiras de avaliar Menos testes escritos
Mais avaliação como parte do processo de aprendizagem Menos avaliação dissociada do processo de aprendizagem
Mais diversidade Menos estereótipos
Mais "O céu é o limite!" Menos necessidade de padrões.


(Fonte: Assessment in the learner-centered classroom)

Bibliografia

AMORIM, Vanessa e Magalhães, Vivian, Cem Aulas Sem Tédio. Ed. Padre Reus, 1998.
TRUSSEL-CULLEN, Alan, Assessment in the learner-centered classroom. Dominie Press, Inc, 1998.
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